Habacuque 3

Capítulo 3: O canto do profeta Habacuque diante do poder de Deus
1.Habacuque começou o livro orando, ficou esperando e termina o livro orando. A primeira vez que orou estava perplexo e questionador e a segunda vez, depois de esperar e receber a resposta, orou glorificando a Deus pelo Seu caráter e Seu poder em toda situação adversa. Jó também teve essa experiência de orar questionando e depois reconhecer a soberania de Deus. O crente deve começar suas lutas em oração, passar as lutas esperando e glorificar a Deus no final. A oração faz parte do culto público e do relacionamento individual do crente para com Deus. Todo o crente deve orar em todas as situações da vida.

quando um bebê nasce
antes de viajar
quando vamos falar
ao tomar decisões
quando alguém morre
ao chegar de viagem
depois de falar
depois das decisões
quando alguém perde o emprego
ao levantar
na angústia
para se conhecer
quando alguém acha um emprego
ao dormir
na alegria
para conhecer a Deus

2.Habacuque não apenas orava, mas também cantava. Neste caso a oração era um cântico.
Habacuque compôs este cântico e passou para o regente, o mestre de canto, com as instruções de como era para ser cantado e tocado, ou seja, com instrumentos de cordas. Em outra versão da Bíblia aparece o termo original “Sigionote”, que também é usado no título do Salmo 7. Não se sabe ao certo o que significa este termo, somente que se refere à música. Talvez, o andamento da música ou até mesmo algum instrumento musical. O culto a Deus sem música é incompleto, assim como o culto sem oração e sem pregação. Através da música expressamos nossos sentimentos a Deus. Nossa alegria, aflição, reconhecimento de sua majestade, bondade, soberania, etc. A música deveria inspirar calma, tranquilidade, alegria, reflexão e até mesmo a tristeza pelos nossos pecados. Todo sentimento de ódio, rebelião, desrespeito, e outros que estão contra a vontade de Deus deveriam ser evitados na música, pois como todos sabem a música não é neutra, mas é ativa sobre nossos sentimentos e até ações. A liberdade de expressão deveria ser respeitada, mas também deveria existir a liberdade de ouvir. Portanto, a música deve fazer parte de nossa adoração a Deus (v.1 e 19).

3.A oração de Habacuque é clara e cheia de sentimento. Assim deveria ser a oração do crente atual e mais importante: que seja individual, também e não só em público. Habacuque estava alarmado porque pensava que Deus não estava fazendo nada, mas ao ouvir as declarações do capítulo 2 mudou de opinião. Deus está agindo em todas as situações e ficaremos alarmados se orarmos e esperarmos na torre de vigia. Ele faz grandes coisas somente por aqueles que perseveram em oração. A atitude de Habacuque mudou quando ele parou de olhar só para a sua nação e para os caldeus e começou a olhar Deus em primeiro lugar. Os problemas imediatos não são a prioridade e sim o conhecimento de Deus nas situações. Quando discutimos com Deus sobre os instrumentos que Ele usa para nos corrigir, começamos a machucar as pessoas, tentando achar alguma justificativa, acusando-as de serem injustas. Devíamos ficar mais alarmados. Se a Igreja está passando por heresias e falta de amor a culpa não é apenas de Satanás e dos hereges, mas de nós mesmos. A nossa frieza e descaso para com a obra de Deus nos deixaram neste estado. Não importa que os caldeus são piores, importa que Judá, o povo de Deus desobedeceu. Olhamos para alguém pior do que nós e ficamos aliviados, quando deveríamos olhar para nós mesmos e ficar alarmados com a nossa falta de obediência ao evangelho verdadeiro. Porque existe alguém pior do eu, isto não me faz estar certo. Só importa a santidade de Deus. A oração de Habacuque é uma responsabilidade da Igreja atual. “Aviva a tua obra, ó Senhor”. O avivamento é a operação de Deus sobre um povo frio e sem vida. Ninguém promove avivamento, só o Espírito Santo. Não existem reuniões de avivamento, pois este não pode ser programado. “No decorrer dos anos e no decurso dos anos” significa que Habacuque pedia que durante o cativeiro do povo, a desobediência fosse sarada e a obra de Deus avivada. Habacuque não mais discute sobre a perversidade dos caldeus, mas ora que durante a ira de Deus, Ele se lembre também da misericórdia. O crente deve perguntar a Deus: mereço a repreensão do Senhor? Estou sendo aquilo que deveria ser? Portanto, parar de pensar nos defeitos dos outros e ficar alarmado consigo mesmo. Que o Senhor nos corrija, mas enquanto isto peçamos a Ele que a Sua obra seja avivada para que não nos tornemos inúteis durante e após a disciplina do Senhor. Que na disciplina do Senhor, recebamos também a sua misericórdia (v.2).

4.Habacuque menciona dois lugares de onde vem Deus. É claro que é apenas uma forma de dizer, pois Deus é onipresente, está em todos os lugares ao mesmo tempo e não precisa vir de nenhum lugar para chegar até um ponto. Temã ficava em Edom, terra de Esaú e Parã na Península do Sinai, onde Moisés recebeu a Lei. O fato de mencionar estes lugares apenas mostra que o Deus que fala hoje com Habacuque é o mesmo que guiou Abraão no Egito, o povo de Israel no Sinai e na conquista de Canaã, quando o povo teve que passar pelas terras de Edom. Quando o crente passa por lutas ele tem que lembrar-se que o Deus que socorrerá é o mesmo que já esteve com ele em outras situações e lugares. Deus vem de Temã e de Parã. “Selá” é uma palavra comum nos Salmos e este capítulo é um Salmo. Provavelmente a palavra “Selá” era a indicação de uma pausa na música para reflexão, enquanto instrumentos eram tocados. Quem está vindo é o Santo, Aquele que colocará um fim no assunto. Julgará os judeus e julgará os caldeus. A glória do Santo Deus cobre os céus. Se olharmos o céu físico veremos a glória de Deus e se contemplarmos a segunda vinda de Jesus Cristo veremos a glória Dele nos céus. A terra se enche do louvor. Deus sempre triunfa e leva as suas criaturas a adorarem o Seu nome. Até os demônios se prostrarão diante do Senhor. Quanto mais nós que podemos louvar o Senhor apenas em reconhecimento de sua santidade e de sua glória (v.3).

5.A pessoa do Senhor Jesus Cristo é majestosa. Quando Ele voltar haverá raios de luz e poder. Ele habita em luz inacessível. Só temos a luz de Deus porque Ele de modo misericordioso resolveu se manifestar a nós pecadores. No Egito Deus provocou contaminação das águas, feridas, insetos e outras pragas. Ele pode incomodar pessoas rebeldes apenas tocando o seu físico. Satanás só pode fazer estas coisas se Deus permitir, mas o próprio Deus não precisa pedir permissão para ninguém. Ele podia acabar com os caldeus simplesmente enviando qualquer praga. Deus pode acalmar qualquer coração irrequieto simplesmente tocando em seu físico (v.4-5).

6.Aquilo que para nós é impossível, Deus faz sem nenhum esforço. Deus tem abalado muitos lugares com terremotos. O Chile é um país em nossos dias que tem sofrido abalos, mas outros lugares já sofreram como Kobe no Japão. Em abril e maio de 2015 Katmandu, capital do Nepal, sofreu um grande terremoto. Em Amós 1.1 e Zacarias 14.5 há uma profecia de um terremoto que abalaria a nação de Israel. O centurião e alguns soldados que participaram da crucificação de Cristo Jesus creram Nele por causa do terremoto que houve assim que Ele entregou o seu espírito. Com isto, também, sepulcros foram abertos e mortos ressuscitaram (Mt 27.54-55). Também houve um terremoto para remoção da pedra do sepulcro que guardava Jesus (Mt 28.2). Em At 16.26 há o registro de um terremoto que livrou Paulo e Silas da prisão e foi o meio que Deus usou para a conversão do carcereiro de Filipos. Mas nem sempre o Senhor se manifesta no terremoto, como foi no caso de Elias em 1 Rs 19.11-13. Mesmo que tudo se abale o Senhor Deus continua eterno, inabalável. Habacuque vê as tendas de Cusã em aflição e os acampamentos de Midiã tremendo. Cusã fica na Etiópia e Midiã foi o lugar onde Moisés morou após fugir do Egito. Deus tem o domínio sobre todos os povos. Nenhuma nação deixou de existir sem a atuação de Deus e nenhuma nação subsiste sem a sustentação Dele. Ele é soberano sobre todas as nações (v.6-7).

7.Deus treme a terra, causa furacões e catástrofes, mas será que Ele está irado com a sua criação? A figura que Habacuque usa em sua oração-canto é de Deus preparado para guerra com poderosos cavalos, os quais sairão para vencer. Quando o povo de Israel estava fugindo de Faraó e o seu exército, o mar os impedia de passar. Mas Deus não estava furioso com o mar, pois este o obedece. Deus não fica furioso contra quem não é rebelde, a ira Dele só se manifesta contra aqueles que “detém a verdade pela injustiça” (Rm 1.18). Outra vez, o povo precisava passar o rio Jordão e Deus abriu aquele rio. Não é contra os rios e mares que Ele se enfurece. Ele trabalha a favor dos crentes que lhe obedecem. O arco de Deus está descoberto e não guardado. Isto significa que Ele usará contra algum alvo. A aljava é um tipo de bolsa para carregar as flechas. O texto diz que a aljava de Deus está cheia. Portanto, os que julgam demorado o juízo de Deus devem considerar que Ele sempre está preparado, nós é que devemos nos preparar. Assim como Deus é um atirador certo com arco e flechas de sobra, as promessas que Ele fez a Israel também são seguras. A terra está no domínio de Deus. Ele recortou toda a terra com os rios. Novamente, o termo Selá, alertando a todos que devem parar para pensar na grandeza de Deus. No v.10, vemos o quadro quando Moisés subiu no monte Horebe. O povo ficou muito amedrontado, pois havia fumaça, raios e fogo. Deus disse que qualquer pessoa ou animal que passasse a linha demarcada morreria. Quando o povo de Israel chegou ao mar vermelho, as profundezas do mar ouviram a voz de Deus e levantaram suas mãos bem alto, dividindo as águas. Ao mesmo tempo em que Deus amedronta, Ele também salva. Por isso, devemos temer e confiar somente Nele. No v.11, o quadro é claro. Josué mandou o sol parar para o povo de Israel vencer a batalha. As flechas podiam resplandecer na luz do dia, mesmo que em situações normais seria noite (Js 10.12-13). Deus pode modificar situações normais para o seu povo. Ele faz tremer montes, abrir o mar e parar o movimento da terra em redor do sol. No v.12, o quadro é do povo de Israel quando entra em Canaã. Deus destruiu aquelas nações idólatras. Portanto, a ira de Deus se revela contra as nações. Se Ele controla todas as nações no curso de toda a História, não é certo pensar que Deus também está olhando para nós individualmente? (v.8-12).

8.Depois de presenciar a profecia, Habacuque podia ficar desanimado com tamanha fúria de Deus contra as nações, mas ele sabe que a ira de Deus é contra os desobedientes apenas. O povo de Deus pode ser disciplinado, mas nunca destruído. Deus salva o Seu povo ungido. Nós somos ungidos pelo Espírito Santo, separados para Cristo Jesus. As portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja. Já o perverso está em situação terrível. Desde o telhado até o fundamento de sua casa Deus destruirá. Faz-nos lembrar da casa edificada na areia em Mt 7.24-27. Novamente, a pausa musical “Selah”. É o momento de meditar nesta verdade, ou seja, o salvo está protegido e o incrédulo não tem nenhuma segurança fora de Deus. O exército inimigo é destruído com as próprias armas dele. Os instrumentos de Deus sobre nós, às vezes, são como uma tempestade. O crente fiel é como o pobre sendo devorado às ocultas. O povo de Israel marchou pelo mar, a pé, sem cavalos, mas foi como se estivesse sobre os cavalos de Deus. Enquanto Faraó e seu exército não tiveram sucesso ao atravessar o mar, apesar dos cavalos velozes. O crente fiel e sofredor tira forças de onde não há forças. Quando é fraco, então é que é forte. Apesar da nossa rebeldia, Deus nos protege por sermos o seu povo (v.13-15).

9.Habacuque ouviu de Deus tudo o que precisava. O livro começou com uma queixa, um questionamento e terminou com a maravilhosa resposta de Deus. Habacuque se comoveu. Comoção é sentir-se perturbado, pasmado. É uma emoção forte. No caso de Habacuque, a emoção era tão forte que não foi possível ignorar.

- os lábios dele começaram a tremer (medo)
- as pernas ficaram fracas (“entrou a podridão nos meus ossos”)
- os joelhos vacilaram (não conseguia ficar em pé)
- não conseguia falar (“em silêncio”)

10.Os caldeus seriam exterminados. Embora fosse o inimigo do povo de Deus, Habacuque estava apavorado diante da poderosa mão de Deus. Se Deus pode pesar a mão sobre o seu instrumento, os caldeus, o qual Ele não tem intimidade, o que Ele não poderia fazer com o seu povo desobediente? Portanto, antes de pensar em vingança, o crente deve pensar que ele não está isento da disciplina do Senhor. Um menino não deve se empolgar que o pai tenha ido atrás do outro que cometeu injustiça contra ele. Mas este menino deve se preocupar quando o pai retornar para acertar as contas com ele agora. Como diz o ditado popular: “Uma vez é da caça e a outra do caçador.” O crente precisa desviar os olhos dos instrumentos que Deus usa e refletir na sua própria vida, no seu andar com Deus e na sua própria desobediência (1 Co 5.12-13, 10.12 e Gl 6.4-5, 1 Co 3.10, 2 Co 5.10 e Rm 14.10) (v.16).

11.Não ficou nenhuma dúvida para Habacuque que Deus usa quem ou o que Ele quiser para disciplinar o Seu povo. Também não permaneceu o questionamento de Habacuque sobre os caldeus e a justiça de Deus. Habacuque aceitou que Deus julgaria Israel e os caldeus no tempo certo. Habacuque soube esperar em Deus pela resposta e O louvou quando Ele respondeu. Habacuque aprendeu que orar e cantar é uma maneira de engrandecer o Senhor. Habacuque aprendeu que não pode fugir da realidade por mais dura que esta seja. O crente deve se preparar para os dias maus e ainda assim extrair alegria sincera do Senhor Jesus Cristo. Habacuque está se preparando para o que o povo de Judá iria enfrentar por causa do julgamento. Agora ele não pensa mais nos caldeus, mas na dura realidade de seu próprio povo. Às vezes, lemos estes versículos e imaginamos que seja apenas uma possibilidade passar pela escassez. Para Habacuque não era uma possibilidade, mas uma certeza. Com os caldeus invadindo Judá, o sofrimento, a morte e a fome prevaleceriam. Portanto, era verdade! Deus não voltou atrás na repreensão do povo, por isso, era preciso arrancar forças e esperança para continuar a sobreviver. Ninguém sobrevive sem esperança. A figueira continuaria florescendo, mas o povo de Deus não aproveitaria os figos, pois estaria longe de sua terra. Quando estamos sob a disciplina do Senhor, os frutos celestiais continuam a produzir na Igreja, entre os irmãos, mas nós somos impedidos de aproveitar até que nos arrependamos e Deus cumpra o seu propósito e tempo em nossas vidas. Quando falta uva na vide, falta o vinho também, que é o símbolo da alegria. Em alguns momentos da vida temos que aprender a experimentar a alegria sem os motivos que normalmente nos fazem alegres. Se a oliveira não produzir azeitonas, não haverá azeite e sem azeite não haverá honra, pois o óleo escorrendo pela cabeça era sinal de honra (Sl 133). É um privilégio ser honrado, porém, às vezes, Deus nos deixa faltar a honra para honrarmos mais o Senhor. Quando não há nenhum lavrador para cuidar dos campos que produzem trigo, não há pão. Deveríamos agradecer pelo pão de cada dia que Deus está nos concedendo e pelo alimento espiritual que estamos recebendo diariamente. Sem as ovelhas não haverá roupas e nem sacrifício para adorar o Senhor. Paulo disse que tendo o que comer e vestir devemos nos dar por satisfeitos. Deus tem dado muito mais do que isto e nem por isso somos tão gratos. Hoje, não precisamos de ovelhas no aprisco para sacrificar a Deus, mas temos Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ninguém O arrebatará do nosso aprisco (nosso coração). E também não seremos arrebatados por ninguém, exceto por Ele mesmo quando vier buscar a Sua Igreja. Se não houver gado nos currais não haverá força para o trabalho e nem leite para o alimento. Deus nos tem dado forças na vida cristã para trabalharmos para Ele. O leite da Palavra é o que nos alimenta e é o leite puro. O povo de Israel podia ficar sem essas provisões, mas nós nunca poderemos sobreviver na vida cristã sem as provisões do Espírito Santo. Mas ainda que passarmos por tribulações, vamos nos alegrar no Senhor, o Deus da nossa salvação. Os judeus tinham muros em volta de Jerusalém que eram sua fortaleza, mas os caldeus derrubaram os muros e queimaram as portas. O crente em Cristo, porém, tem uma fortaleza inabalável. Quem vive o cântico de Habacuque tem os pés como os da corça, nunca param no chão, estão sempre saltitando. É um andar altaneiro, digno e alegre (v.17-19).

“A menção da figueira, da videira, da oliveira, dos cereais e dos rebanhos abrange toda a linha dos produtos agrícolas dos quais a nação dependia. Presumivelmente a razão para o fracasso das colheitas fosse a invasão caldeia. As tropas inimigas não só acabavam com a terra mas com frequência e deliberadamente destruíam árvores e colheitas. Uma antiga crônica egípcia gaba-se de que os soldados egípcios arruinaram as árvores frutíferas de uma planície costeira da Palestina.”[1]

A resposta de oração
1.Leva o crente a clamar pela obra do Senhor (v.1-2)
2.Leva o crente a reconhecer a glória e poder do Senhor (v.3-12)
3.Leva o crente a reconhecer o livramento do Senhor (v.13-16)
4.Leva o crente a alegrar-se, em toda circunstância, no Senhor (v.17-19)


Pércio Coutinho Pereira, 2015 – 1ª ed. Em 2000





[1] Comentário Bíblico Moody – Habacuque, pg. 24 (Editado por Charles F. Pfeiffer – Imprensa Batista Regular 4ª impressão 2001)

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