Romanos 2


Capítulo 2: Judeus e gentios estão condenados
1. Mas isto não significa que os religiosos, intelectuais e os moralistas estão isentos de culpa. É isto que aborda os próximos versículos. Quando Paulo falou dos pagãos usou os pronomes "eles", "lhes", "seus", mas agora usa os pronomes "tu", "tua", "te". É comum os da sociedade "civilizada" condenarem os nativos e isentar-se da culpa, assim tornam-se juízes dos homens, mas têm que prestar contas igualmente a Deus por seus pecados, mais "engenhosamente disfarçados" (v.1-2).

2.Não podemos afirmar que Paulo esteja falando diretamente ao judeu nestes versículos (1-16), pois isto ele fará a partir do v.17. Embora o judeu também esteja inserido nesse contexto, não é a ele exclusivamente que Paulo se refere (v.3).

3.O "soberbo civilizado" despreza a bondade de Deus ao pensar que o pagão não pode ser salvo, mas apenas ele. Porém, o que o homem "inteligente" deve saber é que está acumulando sobre a sua cabeça a ira de Deus que será despejada no dia do juízo (compare com 1.18, onde trata dos pagãos). Paulo tenta demolir toda a presunção do homem que se julga melhor (ou menos pior) do que os pagãos. Note o jogo de palavras mostrando que Deus é rico de bondade e o presunçoso está entesourando juízo contra si (v.4-5).


4.De repente o homem culto se vê diante de Deus e, atemorizado, percebe que as diferenças que injustamente fez entre o pagão e o civilizado simplesmente não existem, porque Deus distingue as pessoas pelo caráter e não pela cultura de sua sociedade. Deus não faz acepção de pessoas (v.6).

5."Perseverando em fazer o bem" refere-se a um salvo fazendo o bem e não a um incrédulo fazendo o bem para obter salvação. Quando se fala de condenação, o judeu é mencionado primeiro; isto porque o judeu foi alvo de grandes privilégios e em consequência tem maior responsabilidade (v.7-11).

6.Cada um será julgado segundo à própria luz que recebeu. Isto refere-se à culpabilidade. Por enquanto, o assunto não é como alguém pode ser justificado, mas o porquê alguém será condenado (v.12).

7.O judeu tem a Lei de Moisés, mas este não tem o direito de achar que Deus o aceitará somente por isso, pois a Lei não oferece privilégios, mas exige responsabilidade (obediência) (v.13).

8.O gentio não tem a Lei de Moisés, mas da mesma forma não tem o direito de achar que Deus o aceitará somente por isso, pois embora não possuindo a Lei de Moisés, possui a lei da consciência, que é a capacidade de perceber o certo e o errado (em certa medida, é evidente) e a natureza que é o instrumento (ou o objeto de percepção) pelo qual a consciência julgará o certo e o errado, isto é, reconhecer a existência de Deus e não adorar a natureza (v.14).

9.Em todas as culturas a consciência é eficaz, é funcional, embora, em todas as culturas existem formas de violar a consciência. Lembro-me de um exemplo que o professor Adalberto Denelsbeck do Instituto Bíblico Peniel dava neste ponto: “Depois de massacrar um grupo, os índios Aioré faziam uma cerimônia transferindo sua culpa às suas armas, e depois queimavam as armas.” Consideramos com muita alegria a verdade de que existe a consciência nos indivíduos, pois esta é uma grande abertura para o Evangelho em todas as culturas, não há ninguém totalmente indiferente à bondade e ao amor (v.15).

10.Este versículo sendo mal-interpretado pode entrar numa perigosa contradição com o argumento anterior (1.18-32, a culpabilidade dos pagãos). Já vimos que o pagão (nativo, animista, índio, ou qualquer outro que nunca ouviu nada do Evangelho) será julgado por causa de seu mau procedimento, (veja 2.2) no entanto, a impressão que dá segundo este versículo é que o homem será julgado com base no Evangelho. Ora, se ele nunca ouviu nada do Evangelho por que será julgado com base naquilo de que não conhecia???? (v.16).

11.A resposta é que "de conformidade com o meu evangelho" refere-se à Pessoa do Juiz, que é Jesus Cristo, Aquele que é a essência do Evangelho, que ressuscitou e Profeticamente estará naquele dia de julgamento (At 17.31). Faz parte do bojo da doutrina do Evangelho tanto a salvação como o juízo, por isso, pode-se dizer que o pecador será condenado por seus próprios pecados, ainda que não tenha conhecido a pregação do evangelho de Jesus Cristo. Um criminoso não precisa saber que o juiz representa o sistema judiciário de tal cidade e nem precisa conhecer como funciona o sistema judiciário e muito menos precisa ser um advogado. O criminoso só precisa reconhecer o seu crime e saber que sua condenação é responsabilidade própria e não do sistema judiciário. Para o governo ele é condenado segundo as leis do sistema (v.16).

12.Ampliando a explicação: Paulo sabia que um dia Deus julgará o perdido e o Juiz será Jesus Cristo e isto (o fato do julgamento) faz parte do Evangelho, ou seja, o Evangelho traz em Sua mensagem Boas Novas de Salvação, mas também de perdição, pois se há salvos é porque existem perdidos (não importando se estes conhecem ou não o Evangelho, conforme 2 Ts 1.8-9). Portanto, o Evangelho é a garantia (a certeza) desse dia de julgamento (v.16).

13.O próprio termo "judeu" (talvez louvor) já denota comunhão com Deus. Não há nada de errado gloriar-se, desde que seja na Pessoa certa (1 Co 1.29-31). O privilégio do judeu é muito grande, pois mais do que qualquer outro povo conheceu a vontade de Deus, através da instrução que recebeu da Lei (v.17-18).

14.Alguns acham que Paulo está utilizando um "humor picante", um sarcasmo, mas não é preciso pensar assim, pois não há nada errado em ser um instrutor de cegos (os gentios), dos que estão nas trevas (os pecadores em geral), dos néscios (que são os ignorantes) e das "crianças" (que são os novos convertidos ao judaísmo, os prosélitos). Não há problemas ser instrutor de cegos, o problema é ser um instrutor cego (Mt 15.14) (v.19-20)

15.Paulo acusa os judeus de hipócritas; Jesus também fez este tipo de acusação (Mt 23.3). Através de seu sistema cambial injusto, os judeus roubavam dos peregrinos que precisavam de animais para o sacrifício (v.21,). A fama do judeu se espalhou entre os pagãos (v. 21-22, leia Mt 23.14 e At 19.37).

16.Alguém só pode blasfemar de Deus se tem algum conhecimento Dele. Os gentios a que Isaías se refere (Is 52.5) tinham conhecimento dos feitos de Deus no passado, porém, com o cativeiro zombam de Deus, que tirou a nação do Egito e agora a leva para o cativeiro. Portanto, os judeus fizeram com que os povos blasfemassem de Deus (v.23-24).

17.Leia Jr 9.25 e Dt 10.16. Ser judeu é muito mais do que guardar as ordenanças, mas é ter um coração obediente a Deus. A circuncisão foi instituída 430 anos antes da Lei de Moisés (Gn 17.14). Foi exigência de Deus para que o povo de Israel fosse selado.Mas a questão levantada por Paulo é a seguinte: Este selo (marca de obediência a Deus) só tem valor se a vida condiz com o contrato. O judeu que é circuncidado está afirmando que é obediente a Deus, portanto, na prática sua vida deve demonstrar essa obediência (v.25-26).

18.O incircunciso por natureza é o gentio que não fez esta cirurgia, no entanto, conheceu a Lei e obedeceu. É evidente que é uma hipótese, pois ninguém obedeceu a Lei, mas se fosse o caso, este embora não sendo circuncidado seria justificado, colocando o judeu sob julgamento. Em outras palavras, "um gentio que cumpre a Lei vale mais do que um judeu que lhe desobedece" (v.27-29).

Somente a título de ilustração: a Ceia do Senhor é o símbolo de nossa comunhão com Cristo e os irmãos, porém, é totalmente destituída de valor se na vida diária não temos essa comunhão. Passa a ser apenas um rito, um formalismo, um ato exterior.

19.Fica assim provada a culpabilidade do pagão animista (1.18-32), do gentio intelectual (2.1-16) e do judeu (2.17-29).

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