Romanos 3


Capítulo 3: O Privilégio e a responsabilidade do judeu. A justiça sem a Lei
1.Ora, se a circuncisão que vale é a do coração, qual a vantagem de ser judeu, com o selo externo, que é a circuncisão? A vantagem é muita. Por exemplo, a Lei santa chegou à terra por instrumentalidade judaica, não só através de Moisés, mas a preservação da Palavra de Deus deu-se pelo trabalho dos escribas e o ensino por causa dos sacerdotes rabinos, fariseus no Templo e sinagogas (Sl 147.19-20). Vantagem não significa superioridade, mas aumenta a condenação quando não há obediência (v.1-2).

2.Nenhum dos atributos de Deus será aniquilado por causa dos atos maus dos homens, pois dentre esses atributos Ele é imutável. Portanto, Deus é Fiel e não permitiria que Seu Plano Eterno fosse frustrado simplesmente porque alguns do Seu povo foram infiéis na transmissão da Sua Palavra (Paulo foi muito caridoso ao falar "alguns"). A consistência do caráter de Deus é a garantia do cumprimento de Suas promessas. A citação do v.4 é do Salmo 51.4. No dia do Juízo Deus terá toda a razão e jamais o homem terá algum argumento favorável a si mesmo. Se um concerto é quebrado por causa da infidelidade de uma das partes, a honra da outra parte não fica diminuída. Tanto é que as promessas feitas a Abraão, Isaque e Jacó continuam firmes. Deus dará todos os privilégios prometidos à nação, inclusive a terra em todos os seus termos (v.3-4).


3.Paulo está falando em termos de humanidade, pois a questão é perdição, julgamento, condenação e não Salvação. Por isso, não precisamos imaginar que Paulo está se colocando como um incrédulo, pois ele está esse tempo todo (desde 1.18) tentando provar a culpabilidade humana. Deus é totalmente justo ao despejar Sua ira sobre a humanidade. Ler todo o cap.14 de Jeremias e 5:1-6 (Note: “Estou cansado de ter compaixão”).

4.”Falo como homem" . “Isto não sugere que as palavras de Paulo não sejam inspiradas. Ele simplesmente está apresentando um ponto de vista humano.” (Vine, pg.47)  Paulo se prepara para todo o tipo de argumento, pois ele usa um recurso literário de levantar questões e ele mesmo responder. E aqui o argumento levantado é tão sutil que é até difícil de entender. Porém, coloque-se na posição do judeu, acusado veementemente por Deus e defenda-se. Veja como este judeu se defenderia (v.5-7):

Paulo está dizendo que o fracasso dos judeus realça a justiça de Deus (v.5-6), ora então, sendo que o fracasso dos judeus exalta a justiça e retidão de Deus, Este mesmo Deus deve desculpar os judeus, pois o pecado do Seu povo serviu para glorificá-Lo, colocando em relevo a justiça divina (v.7)!!!! Como um paralelo para ilustrar, podemos usar o seguinte: Um criminoso em nossos dias teria o direito de ser perdoado porque seu crime propicia emprego para policiais, advogados e juízes...

Que argumento absurdo! Por isso, Paulo até se desculpa por usar um argumento desse tipo ("falo como homem", v.5).

5.Alguns caluniadores acusavam Paulo de ensinar que o homem deveria pecar para que a justiça de Deus sendo realçada fosse o pecador abençoado por ter "feito um favor a Deus". É a filosofia de que "o fim justifica os meios". Paulo termina reafirmando o veredicto dado anteriormente: culpados (v.8).

É como ensinar a segurança da Salvação. Muitas vezes somos acusados de libertinos ao ensinar essa verdade. Pois se não se perde a Salvação o crente pode pecar à vontade (pensam alguns).

6.Os judeus não são moralmente melhores do que os pagãos, como os próprios fatos da história revelam. De um lado (v.2), o judeu tem vantagem, devido aos altos privilégios; por outro não tem vantagem alguma sobre os gentios, devido aos pecados (v.9).

7.Sl 14.1-3, 53.1-3, 5.9, 10.7, 36.1, 140.2-3, Is 52.15. A própria Lei condena o judeu. São mencionados seis pecados do caráter (v.10-12):

1) falta de justiça (v.10) 
2) ignorância (v.11a)
3) falta de buscar a Deus (v.11b, Jr 30:21) 
4) desvio de Deus (v.12a) 
5) inutilidade (v.12b, a palavra era usada para carne estragada) 6) falta de boas obras (v.12c)

8.Aqui são mencionados sete pecados da conduta, sendo que os quatro primeiros referem-se ao pecado no falar e os outros três referem-se à maneira de agir (v.13-18):

1)garganta sepulcral (v.13a) 
2)língua enganosa (v.13b) 
3)lábios peçonhentos (v.13c) 
4)boca maldizente e amargurada (v.14) 
5)pés que correm para matar (v.15, Is 59.7, Ap 6.3-4) 
6)caminhos destrutivos e miseráveis (v.16) 
7)caminhos faltosos de paz (v.17, Is 59.8)

O último pecado mencionado está no v.18, que é a falta de temor a Deus,
donde deriva toda essa lista de 14 pecados.

9.O judeu e o gentio se calam diante de Deus, o veredicto é o mesmo para todos: culpados. Pelas palavras da Lei nenhum homem pode ser justificado diante de Deus, mas apenas entregá-lo como um pecador condenado. Não só a Lei dos judeus (ou de Moisés) é ineficaz para a Salvação, mas qualquer sistema religioso em qualquer cultura não pode justificar o homem de suas más obras. A Lei de Moisés faz calar os judeus; a manifestação visível de Deus faz calar os animistas; e a consciência dada por Deus faz calar os gentios intelectuais, bem como todas as classes de pessoas (v.19-20).

10.A Bíblia nunca considera a idéia: "se alguém conseguisse obedecer a Deus", mas a Bíblia sempre declara: "ninguém nunca obedeceu a Deus" (At 15.10). Tal é a condição do homem, está debaixo do pecado, precisa de ajuda de fora, pois por si mesmo não consegue sair desse estado.

11.Não significa que agora a "nova justiça" de Deus é contra lei, mas simplesmente é extra-Lei, não depende da lei. Também, não é contra os profetas. Porém, não se trata de uma "nova justiça". É a justiça única de Deus, só que agora sendo entendida em toda a sua complexidade. A lei testificou dessa justiça através das cerimônias e tipos, apontando para Cristo, o Salvador. Os profetas também testificaram dessa justiça apontando para o Redentor que viria, embora nem eles próprios conseguiam enxergam muito bem (1 Pe 1.9-12). Para colocar o crente debaixo da Lei é necessário colocar o Cabeça Federal dos que crêem debaixo da Lei também. Sabemos que Este Cabeça Federal, Cristo, nasceu debaixo da Lei, porém, libertou-se da Lei ao pagar o que a Lei exigia: morte. Assim, quem está em Cristo é uma Nova Criatura, passou vitorioso pela Lei e está já não o condena mais (v.21).

12.Ora, é claro que o pecador deve fazer alguma coisa, pois caso contrário essa justificação é arbitrária, ou seja, Deus justifica quem Ele quiser. Mas sabemos que não é assim, a justificação é para os que crêem. A exigência é fé e não obras. No entanto, existe sim uma obra na justificação por parte do homem, é a obra da fé. Assim como todos estão no mesmo estado de pecado e a obra da justificação foi realizada por todos, logo todos os que crerem têm o direito de ser justificados (v.22-23).

13.Cristo Jesus foi aquele que comprou-nos do "mercado de escravos" (Redenção, "apolutrosis", grego e "goel", hebraico), assim Deus-Pai está contente, satisfeito (Propiciação). Todo estudante bem informado já domina os temas Redenção e Propiciação da doutrina de Soteriologia (v.24-25).

14.Todo ano era necessário que o sumo sacerdote entrasse no Santo dos Santos e derramasse sangue de animal em cima daquela tampa (propiciatório), mas Cristo Jesus derramando o Seu sangue na Cruz, a questão ficou resolvida de uma vez por todas, por isso, os "pecados anteriormente cometidos", tanto dos crentes do V.T. quanto dos crentes atuais, são deixados impunes, isto é, deixados de lado. Não fosse assim Satanás poderia ter domínio até dos crentes do V.T., pois de nada teria servido a suposta redenção, através dos sacrifícios de animais, embora inocentes (v.25).

15.Não devemos confundir a origem dos sacrifícios. Os pagãos tentavam aplacar a ira de seus deuses através de sacrifícios de animais e até humanos. Isto é uma deturpação do nosso Deus. O Deus verdadeiro, o Jeová, foi quem instituiu o sacrifício de animais, mas não para aplacar Sua ira, mas para apontar para o Redentor, que morreria como um daqueles animais. Portanto, não é o homem oferecendo sacrifícios a Deus, mas é o ato de Deus exigir sacrifício para proporcionar ao homem a Salvação (v.25).

16.Cuidado! Este versículo não está ensinando que os que morreram antes de Cristo foram salvos (ver também At 17.30). O que está ensinando é que os que participavam dos sacrifícios judaicos (e somente judaicos), foram justificados e seus pecados foram deixados de lado, por causa de Cristo e não por causa dos sacrifícios de animais (v.25).

17.Deus teve uma dívida, por assim dizer, diante dos homens, dos anjos e do próprio Satanás, que é o acusador. Pois, os sacrifícios do V.T. que garantiam vida eterna ao pecador, eram apenas um "penhor" durante alguns séculos. O pagamento real foi a crucificação de Cristo Jesus. Jesus Cristo ao descer ao Hades e informar a todos que Ele morreu, estava com este ato provando que Deus cumpriu seu acordo. Portanto, é errado dizer que Deus foi justificado, pois seria um insulto à Sua Santidade, mas é certo dizer que Deus justificou-se a Si mesmo diante de todos. É o mesmo que dizer que Ele jurou por Si mesmo (v.26).

18.Deus, portanto, obrigou-Se a cumprir um acordo: o de providenciar o Cordeiro Santo para fazer eficaz a fé de todos os que mataram simples animais depositando sua fé num Redentor futuro. Com isso, Satanás foi de uma vez por todas derrotado, esperando somente o dia em que será de fato calado.

19.Por esta lei não há como alguém se julgar melhor do que outro. Deus não deixou espaço para a arrogância do salvo, pois ele não operou nada nesta tramitação, tudo foi obra do Juiz com o Seu Filho para salvar o pecador. A parte que coube ao pecador foi aceitar este presente (v.27-28).

20.Deus só tem um modo de justificação e é este que estudamos largamente até agora. Portanto, judeu e gentio são colocados como réus sem distinção e se querem ser justificados é somente por este único modo. A marca registrada de pertencer a Deus já não é mais a circuncisão, mas é a fé (v.29-30).

21.O problema levantado é: A Lei não valeu de nada?  Claro que valeu! A Lei levou o judeu até onde deveria chegar: ao entendimento que estava totalmente perdido, sem esperança, mas que ao levantar seu rosto prostrado veria a Cruz de Cristo, justificando-o de todos os seus pecados. A força da Lei está na morte, pois imagine a Lei somente advertindo esse pecador: "Desta vez você está perdoado, procure melhorar!" Tal idéia só faz enfraquecer a Lei que é irredutível em sua exigência, que é a morte do transgressor. O judeu talvez falasse nesta altura: "Paulo, você acabou com a Lei". E Paulo responderia: "Não, a Lei acabou comigo: a Lei exigiu minha morte e eu morri com Cristo" (v.31).

22.Sobre a "Crucificação com Cristo", estudaremos no cap.6. No próximo capítulo Paulo prova que a justificação pela fé está em total harmonia com o Velho Testamento. Para tanto, Paulo dá dois exemplos: o de Abraão e o de Davi. Somente o exemplo de Abraão, talvez não seria suficiente, pois, embora seja o "pai dos judeus", estes não ficariam totalmente satisfeitos, em virtude deste não ser participante do sistema da Lei de Moisés. Por isso, Paulo também dá o exemplo de Davi que representa tanto a Lei de Moisés quanto os Profetas.

23.Assim, Paulo resolve outro problema na mente do judeu, isto é, Deus não está limitado à circuncisão para justificar alguém, prova disto é a justificação de Abraão, que primeiro foi justificado, depois foi circuncidado (Gn 15.1-6, 17.9-10,26-27). A circuncisão de Abraão foi uns 14 anos depois disto. Assim, justificação não é só para judeus.

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