Romanos 14

Capítulo 14: A questão dos alimentos e do respeito à liberdade do irmão

1.Desde os tempos de Jesus havia pessoas que pensavam que chegava-se mais perto de Deus através do ascetismo, ou seja, privando-se das coisas agradáveis da vida como comidas, sono, bem-estar, etc. Mais tarde os gnósticos praticavam as mesmas coisas, proibindo os crentes a comerem comidas temperadas, tomar vinho, casar-se, praticar esportes ou realizar qualquer ato que proporcionasse algum prazer ao corpo.

2.Na sociedade romana também havia os vegetarianos, dos quais alguns crentes se encaixavam. Estes criticavam os que comiam carne, e os que comiam carne condenavam os vegetarianos. Além disto, para dificultar ainda mais a situação, havia os açougues que vendiam carnes sacrificadas aos ídolos. Alguns crentes não tinham problema em comer tais carnes, outros não conseguiam ter paz na mente ao pensar nessa idolatria.

1.Os crentes que não conseguem comer por causa da consciência são chamados por Paulo de "fracos" (débeis, mas não estão em pecado por causa disto). Os crentes que comem sem nenhum problema de consciência são chamados aqui de "fortes".


Para entender melhor sobre esta carne:
Um dono de açougue tem uma fazenda, lá ele pega um boi. Este boi era levado ao Templo pagão, onde realizava-se um culto em adoração a algum dos deuses (demônios). Uma parte do boi era oferecida em sacrifício, outra parte ficava com o dono do açougue para vender. Neste contexto fica a pergunta: o crente pode comer desta carne sabendo que outra parte do mesmo animal foi oferecida aos demônios? Para todos os efeitos, o animal todo foi oferecido. Portanto, a carne que o crente estaria levando para casa, poderia ser uma parte de um daqueles animais, visto que o dono do açougue não sacrificava todos os seus animais para a adoração.

2.É necessário distinguir os dois casos. Em Corinto o pecado era ir à festa pagã e comer a comida sacrificada a ídolos. Note, a comida continua sendo do Senhor, mas a festa é do Diabo, por isso, não convinha comer, não por causa da comida, mas por causa da festa. Em Roma, Paulo deixa claro que não é pecado comer em casa, mesmo que a outra parte do animal tenha sido sacrifica. Mesmo assim, em Roma só não era pecado para quem não tinha problema com a consciência. Em Corinto era pecado para qualquer crente, pois não se tratava de ser forte ou fraco, mas de não tentar ao Senhor indo às festas pagãs.

3.O fraco na fé não está em pecado, mas o contexto é aquele já explicado acima. Os crentes que comem carne sem problema de consciência não devem ficar discutindo suas opiniões e nem rejeitar os outros, mas recebê-los sem tentar ganhá-los para a sua opinião (v.1).

4.Aqui Paulo identifica quem é fraco e quem é forte, mas isto não dá a ninguém o direito de criticar o que não come não come carne. Este versículo pode estar falando do vegetariano (que não come carne em hipótese alguma), mas é mais provável que esteja falando daquele que não come a carne sacrificada aos ídolos e na ausência de outra carne prefere comer legumes. Para os fortes a questão do alimento não é problema (1 Tm 4.3-5) (v.2).

5.Paulo adverte aqui tanto o forte quanto o fraco (o que come e o que não come). Até mesmo o fraco deve saber que outros não têm problemas de consciência e que não são libertinos por isto. Um deve acolher o outro, pois Deus acolheu ambos (v.3).

6.Paulo usa uma linguagem como se tivéssemos dois senhores na Igreja, mas não é assim, é apenas uma linguagem figurada. Nem o forte, nem o fraco deve julgar um ao outro, pois cada um serve ao seu Senhor (Jesus Cristo) de coração. Quem vê se estão em pé ou caindo é o Senhor, e Paulo já se adianta a dizer que ambos estão em pé pelo poder do Senhor (v.4).

7.Este versículo deixa de falar de comida para dar o exemplo de dias. Os judeus recém-convertidos ainda tinham algumas preferências em como e os dias de adoração, que era no sábado e não no domingo. Oravam às 9, 12 e 15 horas. Paulo não dá a sua opinião a respeito dessas divergências, mas coloca o peso para cada crente, que consultando a sua própria consciência com o Espírito Santo forme a sua própria convicção (Cl 2:16-17, Gl 4:10-11) (v.5).

8.Tanto dias como alimentação são assuntos secundários, o que importa é a motivação do crente: se faz para o Senhor ou para os homens. Sabemos que nos séculos vindouros a questão seria "resolvida" mediante o início de várias denominações, mostrando assim o fracasso dos crentes em conviver juntos com opiniões diferentes (v.6).

9.A interpretação primária (mas não única) deste versículo é que vivemos para Deus, mas depois de entendermos este princípio, também podemos interpretar este versículo no sentido de que vivemos um para o outro, somos membros de um só corpo e precisamos uns dos outros. Assim, embora de opiniões diferentes, podemos andar juntos (v.7).

10.Nesta vida somos do Senhor e na vida além-túmulo seremos ainda do Senhor. A redenção em Cristo tornou possível a nossa união com Cristo, tanto em vida como após a morte. Assim, Cristo é o Senhor tanto de vivos como de mortos (v.8-9).

11.Depois deste discurso sobre a nossa união com Cristo, é de se esperar que os crentes valorizem uns aos outros, independente de suas convicções. Para firmar ainda mais o ensino, Paulo apela para o ensino do Tribunal de Cristo, onde cada crente dará conta de si mesmo a Deus e é de se esperar que Deus julgará cada uma das nossas motivações e julgamentos que fizemos contra os irmãos nesta terra. O v.11 é a citação de Is 49.18, 45.23, repetida aqui e em Fp 2.10-11. Embora os crentes estarão num julgamento separado dos incrédulos, a verdade de um julgamento não muda, embora felizmente, mude o caráter desse julgamento, onde não correremos o perigo de sermos expulsos da Presença do Senhor (v.10-12).

12.Por causa do Tribunal de Cristo, onde todos devemos prestar contas de nossos atos, é sábio esperarmos que o Senhor julgue os propósitos de cada coração e não fazermos julgamentos aqui (1 Co 4.5). O crente deve propor em seu coração não escandalizar outros por causa de suas opiniões e convicções. Cristo aceita tanto o que come carne como o que come legumes, por isso, é possível viver juntos, sem terem que tentar mudar a opinião um do outro (v.13).

13.Não é lógico, nem sensato pensar que Paulo esteja dizendo que não existam práticas que sejam más em si mesmas. Mas tomando o mesmo rumo que o contexto nos leva, entendemos que Paulo se refere aos alimentos em si, ou seja, a carne como substância alimentícia não é impura, nem mesmo por causa de alguma cerimônia idólatra. A festa, sim, é impura, mas não o alimento, o qual Deus fez e o santificou para o nosso uso. Mas mesmo assim, para alguns algumas comidas são imundas e esta pessoa deve fazer conforme sente em sua consciência. Exemplos (v.14):

1.Se alguém acha que comer carne de porco afeta a consciência para com Deus, não deve lutar para que seja de outra forma, mas antes, deve evitar comer carne de porco e ninguém tem o direito de julgá-lo por estar praticando a dieta judaica que já está em desuso.

2.Se alguém come gafanhoto por achar que bom para saúde (o que de fato é) pode continuar com seu hábito. Ninguém tem o direito de proibi-lo só porque acha repugnante.

3.Se algo é prejudicial para minha saúde, devo evitar, pois o corpo é o Templo do Espírito Santo Mas lembrando que nem tudo o que é indigesto para uma cultura o é para outra.

 Apesar desses exemplos, existe um detalhe muito importante. Se tais práticas escandalizam um irmão, devem ser feitas longe deste irmão. Nenhum irmão tem o direito de tentar convencer outro que sente-se condenado por sua própria consciência a fazer algo. 

Outro exemplo: Sabemos que os chamados "Ovos de Páscoa" são de origem pagã. Os que não comem por motivo de consciência devem continuar não comendo. Os que não vêem problema algum, comerão sem pensar que estão idolatrando algo e aquele que não come não tem o direito de julgar o irmão de idólatra. A questão toda está na consciência e não no chocolate.

Mais Um Exemplo: Um judeu convertido ao cristianismo, mesmo que já entendeu que a circuncisão não salva, tem TODO o direito de continuar a circuncidar seus filhos do sexo masculino, seja por costume, por saúde ou POR CAUSA DE SUA CONSCIÊNCIA. Por outro lado, nenhum crente deve julgá-lo e reputá-lo de herege por causa disto.

14.Ofender um irmão por causa de algo neutro (comida), seria uma grande falta de amor, pois um irmão vale mais do que o alimento. Cristo morreu pelo irmão, por isso, nenhum crente deve fazê-lo perecer (cair, desanimar, escandalizar-se) por causa da comida (v.15-16).

15.Existe algo superior às questões de comida, que é a justiça, a paz e a alegria no Espírito Santo As discussões por questões pequenas de opinião (como até agora tem sido mencionadas), tiram toda a alegria da comunhão com os irmãos no Espírito Santo, mas os que servem a Cristo como prioridade agradam a Deus e se tornam agradáveis aos homens, sem colocar-lhes tropeço (v.17-18).

16.Mais um reforço da afirmação de que há coisas mais importantes que as opiniões a respeito de assuntos secundários (v.19).

17.Para o que come sem problema de consciência, tudo é limpo para ele, mas ainda assim, deve pensar que para outros não é, e por isso, não deve servir de tropeço, destruindo a obra de Deus, que é a edificação mútua (v.19). O abuso da liberdade cristã prejudica a liberdade de outros irmãos e assim destrói a unidade (v.20).

18.Ou seja, evitar tudo o que faça o irmão tropeçar e atrasar o seu crescimento espiritual. Por esta razão, é necessário que no Brasil, pelo menos, os crentes pratiquem a abstinência total do vinho (v.21).

19.O sentido da palavra "fé" aqui, embora seja a mesma palavra que sempre é usada (pistin), não se trata de salvação, mas pode ser entendida pelo contexto como se tratando de "liberdade". Ou seja, a liberdade que cada um tem quanto à consciência é individual para com a pessoa e Deus. Para alguns, determinadas práticas (evidentemente não pecaminosas) não acusam na consciência, tem liberdade, portanto, deve continuar assim diante de Deus. Aquilo que alguém faz sem peso de consciência é certo para ele e este é muito feliz, pois vive livre do peso da consciência. Da mesma forma alguém que não faz certas coisas por motivo de consciência também é muito feliz, pois vive livre do peso da consciência (v.22).

20.Este versículo nada tem a ver com salvação ou perdição eterna, mas tem a ver com a condenação da consciência e reprovação de Deus. O crente que tem problema em comer carne do açougue por causa da consciência deve não comer, se o fizer estará trazendo condenação para si mesmo: primeiro porque a sua própria consciência não o deixará em paz e segundo porque Deus desaprova sua atitude, pois embora a carne é neutra, este crente não agiu conforme a sua consciência, assim pecou porque seu ato não agiu por fé, mas contra a própria consciência (v.23).

21.O que fazer se alguém quer mudar sua opinião, mas a consciência ainda incomoda? Resposta: Deve dar tempo para pensar sobre o assunto, até que em havendo compreensão e uma transformação não-dramática de sua mente e de sua consciência, possa praticar tal ato com liberdade.

22.Paulo roga aos fortes, dos quais ele se inclui, que suportem as fraquezas dos fracos e que não ajam egoisticamente. Dando a aplicação primaria do texto, Paulo queria dizer isto: Você que pode comer a carne do açougue, sem constrangimento, considere que nem todos são assim, portanto, respeite-os primeiro, depois use a sua liberdade nos momentos mais propícios. A palavra "bastadzein" (suportar), tem o sentido de servir de suporte (15.1).

23.Sarcasmo?: Imagine alguém que pode comer carne com total liberdade, chegando perto de outro que não pode fazer o mesmo e dizendo: "vamos almoçar em casa, mas não se preocupe que eu já sei que você é fraco, por isso, não vou servir carne do açougue". Para os que entenderam bem o princípio do amor cristão, não precisam de analisar muito a situação para ver que o forte foi descaridoso e abusou de sua liberdade, desprezando o outro.

24.O v.2 é basicamente a repetição do princípio em 14.19. O v.3, citação de Sl 69.9, mostra que Cristo se abnegou pelos injustos, sofrendo males sem fim. Ora, será que é demais respeitar o irmão? Claro que é incomparavelmente menos penoso. Se alguém ainda tem dúvida sobre este princípio, Paulo mostra a seguir como é possível, apesar de tantas diferenças, os crentes louvarem a Deus em unidade. O exemplo máximo disto é a união de judeus e gentios, formando uma unidade em Cristo Jesus. Aliás, neste contexto o respeito deve ser mútuo, visto que cada qual (judeu e gentio) tem sua dieta alimentar (15.2-3).


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