Romanos 6

Capítulo 6: Mortos para o pecado
1.É um pensamento muito errado continuar pecando, já que a graça fica em relevo, onde há pecado. O tema do capítulo 6 de Romanos tem sido problemático entre muitos crentes. De um lado temos um grupo que crê que somos salvos pela graça, mas que nos santificamos por obras e méritos próprios. De outro lado temos o grupo que crê que somos salvos pela graça e que esta graça nos dá liberdade de não nos preocuparmos com o pecado, pois a própria graça nos santifica, ainda que andemos em pecado. Portanto são dois extremos perigosos, pois a graça não nos permite pecar e nem mesmo somos capazes de vencer os pecados por nossos esforços.

2.Paulo continua com o método pedagógico chamado "dialético" que por sinal é ótimo para fixação de idéias, ou seja, perguntas levantadas por ele e respondidas por ele mesmo. Paulo começa falando que morremos para o pecado. Como já sabemos a morte implica em: cortar relações, separar-se, libertar-se do poderio, obter vitória sobre, colocar um ponto final, não ser mais dominado, etc. (v.1-2).

3.Esta morte para o pecado resulta numa transformação da mente e também, há uma transformação na vida prática, ou seja, na ética do crente. A vida moral melhora visivelmente. Mas neste ponto levantamos uma questão: Paulo está apresentando o IDEAL para a vida cristã ou uma realidade para todo crente? Podemos responder que é um ideal, sim, e também é uma realidade que ocorre na vida de todo o crente que anda segundo os princípios do capítulo 6. O que Paulo ainda não explicou é como morremos para o pecado e isto ele fará neste capítulo.

4.Paulo começa a responder como morremos para o pecado: por meio da crucificação com Cristo Jesus. Esta morte com Ele é um batismo espiritual. Este batismo não é aquele sinal externo com água ordenado por Cristo e nem é o batismo do Espírito Santo de 1 Co 12.12-13. É uma participação símbólica-espiritual na morte de Cristo. Baseado no fato em si não poderíamos ter sido crucificados com Cristo, pois foi um incidente histórico único (v.3).

5.Embora o v.4 seja usado por muitos como referindo-se ao batismo em águas, o versículo está ensinando o princípio da crucificação do crente com Cristo. Quando Cristo morreu na cruz, morremos com Ele, por isso, morremos para o pecado. Quando Cristo foi sepultado, fomos sepultados com Ele, separando-nos assim do pecado. Quando Cristo ressuscitou, ressuscitamos com Ele, levantando-nos, assim para uma nova vida. É verdade que a mesma sequência serve para o batismo nas águas (por imersão). Mas este texto ensina a  importância da realidade espiritual e não a uma apologética sobre a forma como é aplicado o batismo. A crucificação com Cristo permite-nos participar com Ele em Sua santidade (v.5, Gl 2.20). "Velho homem" (v.6, Ef 4.22, Cl 3.9) refere-se ao nosso ser não regenerado, quem éramos antes da salvação, quando ainda estávamos em Adão. O novo homem (Ef 4.24, Cl 3.10) refere-se ao nosso ser regenerado, quem somos agora, salvos (regenerados) em Cristo. "Corpo do pecado" refere-se ao corpo humano. O corpo não é mau em si mesmo, mas é o veículo pelo qual o pecado opera no homem (v.4-6). Para ver a distinção entre “velho homem e velha natureza” ler o artigo “Distinguindo o ‘homem’ e a ‘natureza’” de Tom Stegall.

6.O gnosticismo reputa o corpo como mau em si mesmo e, por isso mesmo, infringe nele todo o tipo de perversidade. Tanto é verdade que o corpo não é mau em si mesmo e não pode ser confundido com o "velho homem".

7.O v.7 não está ensinando "santificação total", mas a vitória do domínio do pecado sobre as nossas vidas. O fato objetivo da morte de Cristo aconteceu na cruz, o princípio subjetivo da nossa morte com Ele acontece no coração, crendo (v.7-8).

8.A morte de Cristo é historicamente provada, a nossa morte com Ele não é fato histórico que pode ser provado, mas é princípio de fé para ser crido. Os v.9-10 reafirmam este princípio do domínio total, pois Cristo morreu só uma vez e viveu para Deus. A nossa crucificação com Cristo aconteceu uma só vez, também. O que é repetido na experiência diária é o "considerar-se", ou seja, a cada dia devemos considerar-nos mortos para o pecado ("morrer a cada dia"). Não pode ser confundido com 1 Co 15.31, onde Paulo fala dos perigos físicos aos quais estava exposto. O ensino de Paulo aqui é como que "já morremos com Cristo" (v.8) e Cristo morreu "de uma vez para sempre" (v.9-10).

9.Aqui temos a ampliação da resposta para a pergunta: Como o crente morre para o pecado? Também, temos uma ampliação da questão: Paulo está apresentando o ideal para a vida cristã ou uma realidade para todo o crente? Ora, se este princípio de morte para o pecado e vida de santificação fosse uma prática de todo o crente, seria desnecessário o imperativo "considerai-vos". Somente os que conhecem e aplicam estes princípios espirituais em sua própria vida é que têm condições de alcançar progresso na vida cristã.

10.Conhecimento não significa que haja tal domínio a ponto de expor este ensino e nem que haja capacidade de ler este capítulo e entendê-lo na íntegra, embora quem esteja nesse estágio tenha maior possibilidade (teoricamente) de obter sucesso nesse assunto. É preciso muito cuidado quanto ao assunto "considerar-se morto para o pecado". Não se trata de "pensamento positivo" em que alguém ficaria pensando, pensando, pensando...até que este princípio entre na mente e faça efeito na vida espiritual. Não! Considerar-se morto é muito mais prático e ativo do que uma "meditação".

11.Os v.12 e 13 advertem para o bom observador que não existe a idéia de não precisar fazer nada no desenvolvimento espiritual. Ninguém consegue a maturidade espiritual por "acidente", mas por esforço inteligente motivado pelo Espírito Santo. Se fosse desnecessário o esforço nosso para fugir do pecado também seria desnecessário o imperativo "Não reine o pecado em vosso corpo mortal". Também, nestes versículos, aprendemos que mesmo sendo redimido e justificado dos pecados, é lamentavelmente possível viver em pecado e correndo atrás dos próprios prazeres carnais (v.12-13).

12.O fato de sermos salvos pela graça, não nos dá permissão para vivermos pecando, pelo contrário, exatamente por sermos salvos pela graça temos um bom motivo para obedecermos, mostrando gratidão a Deus por Sua graça e testemunhando em nossa própria vida que a graça é poderosa para transformação de caráter (v.14-15).

13.Nestes versículos Paulo usa a figura do senhor e do escravo para ilustrar a disposição ao pecado e a disposição à justiça. Novamente Paulo usa a expressão "falo como homem" (v.19), isto porque ele está usando uma linguagem que todos em Roma conhecem: escravatura. "Pela fraqueza de vossa carne", isto é, Paulo precisou usar termos que entendessem, pois o princípio é muito alto para as mentes pequenas (v.16-20).

14.Com isso, pensamos em nossos dias. Se o que Paulo trata de "leite" para os coríntios e romanos e Pedro, para os crentes do 1º século, em que estado de saúde estarão os crentes do século 21? Antes de sermos salvos éramos escravos do pecado. Pertencendo a Cristo estamos livres da velha escravatura, porém, não deixamos de ser escravos, apenas mudamos de senhor. Devemos servir este novo Senhor com o mesmo entusiasmo que servíamos aquele velho senhor (ver Mt 6.24).

15.Lembre-se: Paulo não foi um exemplo desse entusiasmo na vida antiga e agora? Note no v.20 que enquanto éramos servos do pecado estávamos livres da justiça, mas de que adiantou essa liberdade? De que adiantou a liberdade que o "Filho Pródigo" ganhou (Lc 15.11-24)? Alguém que usa essa liberdade em relação à justiça aprofunda-se cada vez mais ao reino que está servindo: o pecado. O que alguém pensa que é liberdade verdadeira, descobrirá que é o pior tipo de escravatura.

16.Um escravo em Roma deixava de ser escravo de seu senhor, se outro senhor o comprasse, porém, continuava a ser escravo, só que de outro. Havia, porém, maneira de ser liberto de qualquer senhor, se tivesse condições de depositar no Templo de algum deus uma quantia em dinheiro para a sua alforria. Este dinheiro voltava às mãos daquele senhor... Também, algum libertador poderia comprar, entregando o dinheiro ao sacerdote, assim o dono do escravo não poderia recusar, pois aquele escravo pertenceria ao deus, a que foi consagrado.

17.Outra maneira de se libertar da escravidão era morrendo, evidentemente. Voltando ao princípio bíblico, vimos no v.6 que já morremos para a escravidão do pecado. Podemos usar também a ilustração da compra, pois Cristo Jesus, nosso novo Senhor comprou-nos do antigo senhor, o pecado.

18.Para todo o serviço há um tipo de salário. Como toda a ilustração tem suas fraquezas inerentes, não precisamos forçar o texto, tentando provar que os escravos romanos tinham salário, além da sobrevivência. Aliás, Paulo usa de ironia, visto que todos sabiam que um escravo não tinha direito a salário. O salário que ganhávamos, enquanto escravos do pecado, temos vergonha hoje, até de mencionar (v.21), não só porque não tínhamos lucro nenhum, mas também porque produzia frutos malditos. Mas com o novo Senhor a quem servimos o fruto é santificação e vida eterna (v.21-22).

19.O v.23 conclui o capítulo comparando as duas escravaturas e seus respectivos salários. Para enriquecer este princípio fazemos bem em lembrar, a partir de Gênesis, exemplos de pessoas que serviram o pecado e quais foram os frutos e, por outro lado, os que serviram a justiça e quais foram os frutos. Embora, frequentemente, usa-se o v.23 para apelar aos incrédulos, este é um apelo veemente de Paulo aos crentes para que vivam em santidade (v.23).

Um Pouco De História Sobre A Escravidão
A Escravidão é uma servidão involuntária, imposta por alguns sobre os outros, uma condição que tem existido desde o início da História. Escravidão, normalmente é por efeito de guerra, ou débito, ou violação de alguma lei. A Escravidão geralmente envolve trabalho não remunerado. Não são em todas as sociedades que a escravidão é humilhante e de trabalhos forçados e desumanos e nem sempre a escravidão é aplicada às classes mais baixas, sem cultura, pois no passado escravos têm servido até como magistrados.
Na Lei de Moisés um escravo servia por até sete anos e depois disto recebia a alforria, sem ter que pagar nada por isto.
Em Roma, a escravidão tornou-se uma prática da política nacional. O senhor tinha o poder sobre a vida e a morte de seu escravo. Cresceu tanto a população de escravos em Roma que isto contribuiu para a destruição econômica do Império. Para termos idéia da grande quantidade de escravos em Roma, no período de Augustus até Justiniano a população de escravos era de 20.832.000, sendo que a população livre era de 6.944.000!


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