Romanos 7

Capítulo 7: O antigo e o novo relacionamento: a Lei e a Graça. A experiência de Paulo
1.A palavra "porventura" indica que é uma continuação do assunto anterior. Após ter usado a ilustração da escravatura, Paulo utiliza-se de algo comum para a sociedade romana e, esta lei é facilmente entendida por nós por ser, pelo menos no aspecto que ele usa, idêntica à lei da nossa sociedade. É importante lembrarmos que Paulo não está ensinando sobre casamento, viuvez, divórcio ou sobre a indissolubilidade do casamento, estas coisas só são ilustrações, o assunto básico é a desobrigatoriedade do crente em relação à lei por causa do princípio da morte com Cristo Jesus (v.1-3).

2.A lei, à semelhança de um casamento, só tem poder sobre uma pessoa enquanto esta vive, mas sendo que a pessoa morre a lei não tem mais poder sobre a vida dela, assim como alguém está ligado a outra pessoa no casamento enquanto o cônjuge vive, acontecendo a morte deste o outro está desobrigado aos compromissos do casamento, podendo inclusive, casar-se novamente.


3.Com a explicação prévia do princípio da morte com Cristo, esta ilustração fica muito simples de entender. Nós morremos com Cristo e por isso estamos livres do pecado. O casamento no regime da lei e que realçava os nossos pecados, acabou. Agora somos "casados" com outro, o qual é Cristo Jesus e não estamos mais sujeitos às obrigações do antigo casamento e, portanto, vivemos em novidade de espírito, uma nova vida de santificação.

4.Neste ponto Paulo afirma que a lei é caduca em relação ao princípio de santificação. Devemos entender que estas palavras foram escritas, mas com certeza Paulo falava pessoalmente por onde passava e, por isso, não é de se admirar que tenha sido preso e quase morto pelos seus compatriotas. Morremos com Cristo e ressuscitamos com Ele e, por isso, livres da lei por causa da nossa morte, casamos com Cristo que também morreu mas ressuscitou. É um casamento espiritual e celestial, singular em todas as formas.

5.Não podemos desprezar a possibilidade de Paulo estar escrevendo com vistas ao crente vindo do judaísmo, pois ao falar "libertados da lei" (v.6), "morrestes relativamente à lei" (v.4) e "aos que conhecem a lei" (v.1), só pode referir-se especificamente aos judeus. Porém, é perfeitamente aplicável a todos os crentes, pois todos nós "vivíamos segundo a carne" (v.5-6).

6.Este ensino entra em grave conflito com o legalismo. O legalismo é um princípio que ensina que é possível alcançar a santidade e comunhão com Deus, através da obediência à Lei de Moisés (ou aplicando, através da obediência a regras próprias, mesmo que não sejam a Lei de Moisés). A fraqueza do legalista é que ele só consegue considerar o problema dos pecados (plural) e não consegue enxergar o problema do pecado (a verdadeira raiz do problema).

7.Para ilustrar o que o legalista está tentando fazer é só abrir uma torneira, fazer uma concha com a mão, e tentar depositar à parte a água recolhida. O quanto conseguisse recolher, seria indiferente, pois ainda ficaria "em dívida" pela abundância de água que ficou sem recolher e que continua escorrendo!

8.Para o judeu Paulo era um herege sem retorno, pois "reduzir" a Lei, conforme pensavam que Paulo fez, era uma blasfêmia contra Deus. O fato é que Paulo não diminuiu o valor da Lei, mas deu a esta a interpretação correta, tal qual nunca alguém tinha feito até o momento. Paulo, passa então, a demonstrar o poder da Lei em sua própria vida.

9.O capítulo 7 de Romanos tem sido matéria de discussão entre os intérpretes da Bíblia. A questão levantada é a seguinte: Paulo relata a sua experiência antes da conversão, mostrando que o peso da lei fazia-o miserável ou relata a sua experiência depois de convertido? A posição adotada neste material é que Paulo está falando de sua experiência após a conversão. Paulo mostra o conflito que todo crente passa. Apesar do conflito Paulo é claro em dizer que quando o pecado o controla ele é culpado e, quando Deus controla ele é santo.

10.O pecado da cobiça é pecado com ou sem Lei, porém, Paulo só reconheceu a cobiça como pecado através da Lei. É lógico que qualquer pessoa, mesmo sem conhecer a Lei pode reconhecer o que é pecado, mas não plenamente como aquele que tem um código de conduta bem estabelecido por Deus. A Lei diz: "faze e viverás", mas a Lei sabe que ninguém obedecerá e, por isso, aumenta a angústia do pecador. Desta forma, a Lei coloca uma profundidade quanto ao pecado, que é impossível quem não tem Lei sentir tão seriamente (v.7).

11.Observe que Paulo não começou mencionando aspectos externos da Lei como assassinato, adultério, furto. Mas Paulo fala de algo do interior do coração: a cobiça, porque o pecado provém do mais interior do ser de uma pessoa. Não devemos interpretar as palavras de Paulo como sendo culpa da Lei o fato dele cobiçar, ou seja: A Lei diz "não cobiçarás". O pecador cobiça, mas não porque a Lei acendeu nele um desejo de cobiçar. Deus colocou a árvore do conhecimento do bem e do mal para Adão ver, mas nunca  podemos dizer que Adão pecou porque "tudo o que é proibido é melhor", pois sendo assim, Deus seria o culpado pela queda de Adão! Longe de nós só pensar nisto!

12.Sem a Lei o pecado estava morto, não porque Paulo não pecava, mas porque o seu pecado não lhe causava aborrecimento na consciência, não despertada pela Lei. Mesmo sem mandamento, mais cedo ou mais tarde o pecador chegará ao caminho da cobiça e outros pecados. Contudo, é verdade que a Lei apressa o caminho do sentimento de culpa, mas não é a lei a responsável por ele pecar. Não é que a Lei seja culpada pelos desejos que o homem não tinha antes de conhecê-la. O ser humano sempre cobiça, mas quando a Lei diz: "não cobiçarás", logo a sua consciência, mesmo corrompida é reacendida (v.8).

13.O velho homem não precisa de incentivos para pecar, ele já é propenso a todo o tipo de mal. Por isso, acontecem tantos crimes hediondos, difíceis de imaginar como foram elaborados.

14.Paulo sempre viveu debaixo do regime da Lei por ter nascido judeu, porém, não tinha compreensão total da Lei até um certo momento de sua vida. Alguns afirmam que Paulo se refere ao "Bar Mitzva", ocasião quando a Lei era ensinada profundamente ao jovem, e este tornava-se "filho do mandamento", onde assumia a responsabilidade pessoal de guardar a Lei, mas há registros que esta cerimônia tenha sido estabelecida depois. O certo é que Paulo quando reconheceu o seu pecado, descobriu que estava morto para com Deus, longe de atingir Seu padrão de Santidade (v.9).

15.A Lei prometia vida aos obedientes (Lv 18.5). Paulo teve a ousadia (para não dizer "atrevimento") de ir mais profundamente no conceito de vida em obediência à Lei que o próprio Moisés nunca revelou ao povo, ou seja, a promessa da Lei sempre foi vã. A Lei sempre prometeu vida aos obedientes, mas nunca mostrou alguém que tenha obedecido satisfatoriamente. Paulo chegou a afirmar que a Lei foi um ministério de morte (2 Co 3.7-9) (v.10).

16.O pecado, aproveitando-se do conflito que há entre o mandamento correto, porém, de altíssimo padrão (inatingível) e a natureza pecaminosa, que SEMPRE tende ao mal, enganou Paulo e, por fim, o matou, deixando-o sem chance alguma diante de Deus (v.11).

17.A Lei não teve culpa alguma. A Lei é santa e justa. A Lei que é santa e justa não foi a culpada pela "morte" de Paulo, mas o próprio pecado de Paulo produziu sua morte, usando a própria Lei santa e justa para acontecer isto. Assim, o pecado tomou uma força terrível por causa da Lei (v.12-13).

18.Enquanto incrédulo a Lei não pode justificar; enquanto crente a Lei não pode santificar, mas ainda assim, a Lei continua sendo santa e justa e o homem continua sendo carnal, vendido sob o pecado. Mesmo o crente tem desejos íntimos pecaminosos e dessa forma é carnal, dominado pelos desejos do velho homem. "Vendido sob pecado" tem o sentido de vendido à escravidão do pecado. Se cremos que Paulo está falando de sua vida como crente, devemos sustentar isto em todo este capítulo. Portanto, embora nem todos concordem, é possível mesmo como crente vez por outra ser "vendido à escravidão do pecado", ou seja, há momentos de retrocesso na vida espiritual de todos nós, quando resolvemos servir ao pecado novamente, mas felizmente o nosso "novo Senhor" busca-nos para servi-Lo novamente (v.14).

19.A vitória será ganha, embora no caminho percamos algumas batalhas. Assim, como já não somos bons escravos do pecado como éramos, é de se esperar que não nos tornaremos mais escravos do pecado. Apesar de vez por outra o crente buscar o pecado, esse estado é temporário, pois não faz parte mais de sua escravidão. Um peixe não pode voar pelos ares, nem um pássaro nadar debaixo das águas. Mas há o peixe voador e o ganso, mas quanto tempo pode agir qualquer deles no elemento do outro? Um minuto só. Isto ilustra a nossa nova posição.

20.O conflito de Paulo chega ao ponto dele próprio não entender o que acontece com ele. Aqui está Paulo, novamente "vendido à escravidão do pecado", não porque quer, mas por causa de seu velho senhor que não o quer deixá-lo livre. Este conflito é real, embora alguns tentam ignorá-lo, escapando para a "racionalização de pecados", isto é, não chamando de pecado aquilo que é pecado. O melhor que o crente faz é admitir este conflito e esperar o livramento. Este conflito nos faz refletir o seguinte: "O crente é diferente do incrédulo até mesmo quando peca". Não porque peca com mais "diplomacia", mas porque odeia quando peca e fica muito triste por não fazer aquilo que ama. Este conflito fica mais intenso à medida que há maior santificação (v.15).

21.Paulo neste versículo está exaltando a Lei em seu íntimo, pois se há conflito, é porque ele concorda que a Lei está perfeitamente certa em chamar de pecado aquilo que ele também está chamando, e até se martirizando por praticar (v.16).

22.Paulo não está enganando ninguém, embora tenha começado o capítulo 6 de maneira gloriosa, dizendo que morremos para o pecado. O pecado habita em Paulo.  Por isso, alguns ensinam que Paulo relata sua experiência anterior à conversão e não a vida de salvo. Num momento de batalha contra o pecado Paulo falhou. Ele não está se desculpando, mas está reconhecendo que é um pecador. Paulo descobre que o pecado ainda tem presença na vida dele, tanto é que ele diz que "não sou mais eu que faço, mas o pecado que habita em mim" (v.17 e 20).

23.Paulo não está dizendo que não há nada de agradável no homem sem Cristo, mas que o velho homem não produz nada de proveitoso quanto à santificação, que é o assunto principal. Cada vez que o velho homem resolve glorificar a Deus, acaba glorificando a si mesmo. Por isso, o velho homem não é bem cuidado, mas crucificado. A carne, e não a Lei, arrasta o homem para longe da obediência (v.18-19).

24.É a situação normal da vida humana, para o crente não deve ser surpresa: toda a vez que tentar agradar a Deus, esbarrará na auto-glorificação (ao cantar, ao pregar, ao ensinar, ao trabalhar, etc.) (v.21).

25.Por falta deste conhecimento há muitos crentes dedicados ao Senhor sentindo-se muito inferior ao ver outros crentes "mais" dedicados, pensando que estes estão longe de terem problemas com o velho homem. Não há nenhum crente que seja tão espiritual ao ponto de ter vencido de uma vez por todas as características do velho homem (nem mesmo Paulo v.24).

26.(Ef 3.16, 1 Pe 3.4, 2 Co 4.16). O homem esclarecido pela Lei, deseja o bem. "Homem interior" é o termo teológico usado para o interior do homem regenerado e não pode ser usado para o interior do incrédulo, pois este não "tem prazer na lei de Deus", muito embora, Paulo mesmo antes de ser regenerado tinha prazer na Lei de Deus, sendo um judeu piedoso, só que falto de entendimento correto da Lei (v.22-23).

27.Paulo usa a palavra "talaiporos" (desventurado, aflito, miserável). Esta palavra descrevia bem um atleta derrotado nos jogos olímpicos: totalmente exausto, desesperado e frustrado. É o grito de desespero de todo o crente consciente desse conflito. "Corpo desta morte" é uma referência ao "corpo do pecado" (Rm 6.6), que é o corpo, onde é travada esta batalha, ainda que seja na mente, pois esta faz parte do corpo físico (v.24).

28.Finalmente Paulo começa a dar uma palavra de consolo, uma solução para conviver e sobreviver em meio a este conflito das duas naturezas. Embora, haverá momentos em que voltaremos a servir o antigo senhor, que é o pecado, com toda a certeza serviremos a Deus com entendimento tal qual nunca tivemos antes. Ou seja, pecaremos "por acidente", mas serviremos a Deus conscientemente! (v.25).


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