1 Coríntios 1


Primeira carta de Paulo aos Coríntios


Capítulo 1: Saudação, gratidão, união e sabedoria de Deus e do mundo
A.Saudação (v.1-3)
1.Paulo foi o autor desta epístola por volta de 52-54 a.D. Gálio foi procônsul em 50 a.D., época em que Áquila e Priscila foram expulsos de Roma e foram a Corinto.

2.Paulo estava morando em Éfeso por 3 anos quando escreveu esta carta (At 20.31, 1 Co 16.5-8).

3.O início da Igreja em Corinto está registrado em Atos 18.1-11. Paulo veio de uma frustrante viagem (Atenas); ganhou ânimo em Corinto. Paulo ficou 18 meses em Corinto. Foi o 2º lugar onde Paulo ficou mais tempo, o 1º foi Éfeso (3 anos).

4.Em Corinto Paulo escreveu as epístolas de Romanos, 1 e 2 Tessalonicenses. Depois de Paulo, um rabino judeu veio a Corinto (Apolo). Este foi esclarecido sobre a fé judaico-cristã em Éfeso, por Áquila e Priscila.


5.Em Corinto estouraram divisões, vícios, abuso de liberdade, legalismo, profanação da "festa do amor" (agapao), falsas doutrinas, imoralidade, etc. Com a saída de Paulo, Apolo chegou, mas de modo algum foi Apolo quem prejudicou aquela igreja.

6.Corinto era uma das mais importantes do Império Romano. A população da época era de 400 mil habitantes, só ultrapassada por Roma, Alexandria e Antioquia. Corinto era a principal rota comercial do Império Romano. Havia gregos, romanos, judeus e outros.

7.Paulo escreveu esta epístola (chamada 1ª aos Coríntios) para responder sobre casamento, alimentos e a preocupação de Paulo sobre diversos assuntos, dos quais teve informações de Cloe.

8.É bem provável que uma carta tenha sido "perdida" (1 Co 5.9); outra carta foi II Coríntios que temos em nossa Bíblia.

9.Alguns dizem que no total foram quatro cartas, porém, é impossível provar, sendo que temos duas somente e não sabemos quais partes são divididas para formarem quatro (ou seja três, visto que uma foi extraviada).

10.A segunda epístola aos Coríntios trata da "Defesa do apostolado de Paulo", basicamente o assunto que em 1 Coríntios resume-se no capítulo 9.

11.Paulo deixa claro que a posição e obra do apostolado não era sua, mas sim uma chamada específica de Deus. Ele exercia não só a função de apóstolo, mas a autoridade de apóstolo, não só porque fundou a igreja em Corinto e outras, mas porque foi escolhido como apóstolo, mesmo não sendo de fato, porém, sendo de direito (Atos 1,21-22). (v.1).

12.Sóstenes, provavelmente foi o amanuense de Paulo. Talvez seja o mesmo de At 18.17, líder da sinagoga, espancado perante o tribunal de Gálio (v.1).

13.Os coríntios recebem o tratamento de "santificados e santos". Infelizmente uma grande parte dos crentes modernos não compreendem estas expressões, senão somente relativo ao caráter moral elevado. A expressão grega "hagiazo" transmite a ideia de algo separado por Deus (v.2).

14.A expressão "com todos os que em todo lugar" ensina sobre a Unidade da Igreja. Nunca existiu o conceito de separação das igrejas, exceto por questão geográfica (igrejas locais). Os crentes atualmente precisam de muito maior compreensão do que é Unidade da Igreja, pois estamos num emaranhado de denominações (v.2).

15.Graça (karis) é uma saudação grega e paz (eirene) é uma saudação judaica (shalom em hebraico). Isto mostra a unidade do Corpo de Cristo (judeu e gentio) e, também, ensina que só pode haver paz como resultado da graça salvadora de Cristo Jesus (v.3).


B.Gratidão (v.4-9)
1.Apesar da situação (veremos durante toda a epístola), Paulo podia achar motivo de agradecimento. Em todos os crentes podemos ver motivo de gratidão a Deus, pois a graça de Cristo manifestou-se no mais debilitado crente que já existiu (v.4).

2.A expressão "em Cristo" aparece 164 vezes nas epístolas de Paulo, sendo que 10 vezes se encontram nos primeiros dez versículos deste capítulo. "Em Cristo" significa que participamos da plenitude de Deus (Ef 3.19) (v.4).

3.Os coríntios estavam enriquecidos, isto é, repletos de dons, embora faltasse o amor (cap.13). Em lugar do amor havia orgulho. Os coríntios, também, eram ricos na transmissão da verdade ("em toda a palavra"). Havia bons oradores dentre os crentes coríntios. Havia escolas de retórica, aplicavam isto nos sermões, por esta razão muitos preferiam Apolo (bom orador) a Paulo (fraco em oratória, 2 Co 11.5-6) (v.5).

4.Os coríntios, também, eram ricos na apreensão da verdade ("em todo o conhecimento"). O Espírito Santo deu a muitos coríntios a compreensão das coisas espirituais, porém, se orgulhavam disto para sua própria destruição (v.5).

5.Portanto, os coríntios eram ricos em três maneiras:

1)Quanto aos dons espirituais
2)Quanto à oratória
3)Quanto ao entendimento
               
6.Além dos dons, os coríntios tinham a confirmação (aprovação) de Cristo, ou seja, os dons não eram falsos. O testemunho de Cristo foi confirmado entre os coríntios, em outras palavras, as conversões em Corinto foram genuínas (v.6).

7.A tradução correta para o português no v.7 deve ser "vos falta" e não "vos falte". Não se trata de Paulo desejando que não "falte" nenhum dom aos coríntios na manifestação de Cristo, mas sim que Paulo está afirmando que nesta manifestação não faltará dom com o qual deverá prestar conta a Deus. Muitos crentes esperam a vinda de Cristo, mas nem todos pensam que deverão prestar contas a Deus (2 Co 5.10) (v.7).

8.O Senhor providenciará que não falte nenhum dom até o dia em que os coríntios se encontrem com Ele. Desta forma é possível chegar diante de Cristo irrepreensível, mas também com o peso da responsabilidade de prestação de contas (v.8).

9.Nenhum crente deve se preocupar se chegará no céu sem os dons (pois isto não ocorrerá), mas deve temer se não foi bom mordomo dos dons dados pelo Espírito Santo (v.8).

10.Deus é fiel em todos os aspectos, mas conforme o contexto aqui, Deus é fiel em manter os dons seguros até o Tribunal de Cristo. A Igreja aqui é mencionada com a expressão "Comunhão de Seu Filho" (v.9).

C.União (v.10-16)
1.A expressão "rogo-vos" (parakaleo) significa "colocar-se ao lado". Paulo se coloca ao lado dos coríntios para levá-los a compreender o que quer falar (v.10).

2.Paulo pede aos coríntios que se unam. Não havia uma grande congregação, e sim, diversas congregações pequenas, funcionando nas próprias casas dos crentes. Estava ocorrendo divisões, rivalidades, competições de um grupo com o outro, além das divisões entre os irmãos da mesma congregação. As divisões internas podiam ser resolvidas ali mesmo (v.10).

3.Paulo faz menção das divisões, mas até o momento não tocou nos motivos. Paulo pede união num mesmo pensamento, numa mesma mente (v.10).

4.As diferenças não são necessariamente um problema sério, pois estas sempre existirão, mas o problema é como os crentes lidam as diferenças existentes. Ignorar as diferenças é viver de modo superficial; respeitar as diferenças é viver de modo maduro.

5.Cloe era um dos crentes tristes com a situação e apelou para Paulo. Cloe é um nome feminino ("verdejante"). Possivelmente não era de Corinto, mas de Éfeso, onde Paulo estava. Não sabemos exatamente como Paulo recebeu estas informações. A seguir algumas conjecturas (v.11):

1.Talvez algum escravo da casa de Cloe visitou Corinto e trouxe a informação para Paulo em Éfeso ou para Cloe.
2.Talvez a própria Cloe visitou Corinto e trouxe a notícia para Paulo ou para algum escravo crente.

6.Não sabemos se Cloe era crente, é bem provável que sim. De qualquer forma, Paulo recebeu notícias de Corinto, de modo muito cauteloso, ou seja, de alguém de Éfeso e não de Corinto, o que prejudicaria ainda mais a situação, causando a impressão de que Paulo estaria tomando algum partido ouvindo alguém de Corinto.

7.Os coríntios estavam com os olhos fitos em homens. Os gentios em geral apreciavam Paulo, o "apóstolo aos gentios". Os gregos apreciavam a oratória e, consequentemente, Apolo (At 18.24, 2 Co 11.5-6). Os judeus apreciavam Cefas (Pedro), o apóstolo da circuncisão (Gl 2.7). "Os de Cristo" não são melhores do que os demais, mas são contenciosos, também, formando um grupo à parte (v.12).

Não se sabe se Pedro visitou Corinto. Só agora Paulo tocou num dos motivos das contendas: o partidarismo, a "preferência nociva".

8.Paulo dá duas razões porque não pode haver divisão no Corpo (v.13):

1ª)A crucificação de Cristo - através da cruz somos unidos
2ª)A santificação pelo batismo - o crente colocado no Corpo de Cristo é unido imediatamente aos outros membros.

9.Paulo tinha suas razões para não batizar, as quais não esclarece muito bem, mas o importante é que isto contribuiu para não haver maior partidarismo. Paulo deixava o batismo a cargo dos líderes das igrejas. Paulo batizou Crispo (At 18.5-8). Crispo foi perseguido pelos judeus. O fato de alguém batizá-lo podia comprometer seriamente e, talvez por isso, Paulo o batizou. Paulo batizou também, Gaio (Rm 16.23), possivelmente seu anfitrião em Corinto (v.14).

10.Ninguém podia apoiar-se no fato de ter sido batizado por Paulo e assim, causando maior divisão. O nome envolvia identificação, portanto usar o nome de Paulo, ("em meu nome", v.15), ou seja, ser batizado por Paulo indicaria forte ligação com ele. Deste modo, Paulo não tinha ligação com nenhum partido (v.15).

11.Estéfanas (v.16) estava com Paulo (1 Co 16.17). Talvez o próprio Estéfanas lembrou a Paulo que este o batizou. Batizar não era o ministério de Paulo, por isso, ele nem ao menos se lembrava (v.16).

D. A sabedoria de Deus e a sabedoria do mundo (v.17-31)
1.Paulo não foi enviado para batizar, mas isto não quer dizer que o batismo não seja importante, mas sim, que foi uma tarefa deixada para os líderes permanentes de uma igreja e Paulo não tinha este ministério. A principal tarefa do apóstolo ("enviado") era pregar o evangelho, estabelecendo igrejas, mas a tarefa de estabelecer liderança e dirigir os crentes era do "evangelista" (conforme as epístolas pastorais) (v.17).

2.A maneira de pregar o evangelho não é com sabedoria de palavras (humanas). Estas palavras eram duras para os coríntios, pois os gregos de modo geral avaliavam um pregador pela oratória. A ordem não é substituir a "sabedoria humana" por "ignorância humana", mas o quanto for possível e sadio deve-se usar uma boa oratória que agrade qualquer ouvinte (v.17).

3."Cruz é morte e morte é fracasso e exaltar o fracasso só pode ser loucura". Este é o pensamento comum de uma mente sem Cristo. A Cruz não é mensagem agradável, mas palavras duras, no entanto é o poder de Deus (v.18).

4.Is 29.14. O homem sempre acha que está certo e Deus errado (Pv 14.12 e 16.25) (v.19).

5."Sábio, escriba e inquiridor" são símbolos de pessoas sábias e cultas. Diante Deus, no entanto tornam-se em nada. Deus prova que a sabedoria humana erra em não considerar a fonte: o próprio Deus (v.20).

6.A sabedoria do homem em qualquer época não o satisfez, não o conduziu ao alvo supremo de toda alma, que é o conhecimento de Deus (Jó 11.7). A loucura da pregação é a própria mensagem: a Cruz. Crer num salvador crucificado é loucura para os que se perdem (v.21).

7.Os judeus pedem sinais porque foi só isto que conheceram em toda a sua história. Esta nação foi guiada por Deus através de fatos concretos e visíveis. Exemplos: Passagem pelo Mar Vermelho, Nuvem e fogo, Maná, Muralhas de Jericó, etc. Pediram um sinal de Jesus (Mt 12.38, 16.14, Mc 8.11-12, Jo 6.30). Um Messias, operador de sinais, sim, mas crucificado, era loucura (v.22).

8.Os gregos buscam sabedoria porque foi só isto que conheceram em toda a sua história. Esta nação tinha sensibilidade à filosofia, por isso, davam-se às especulações. Crer num salvador crucificado não tem lógica, por isso, é loucura. O Evangelho é loucura para o pensador, pois é muito simples, mas se estivesse disposto a ir além de seu pobre pensamento descobriria um Deus confiável (v.22).

9.Apesar das dificuldades para judeu e grego, Paulo não muda sua mensagem. O judeu queria um Messias glorioso, estabelecendo o reino prometido, mas morreu como criminoso (este é o "escândalo para os judeus") (v.23).

10.O grego queria explicação intelectual, mas não havia, pelo menos, do modo que desejava (esta é a "loucura para os gregos"). No ponto mais dubitável para o judeu e grego é que Paulo enfatiza a sua mensagem: a crucificação de Cristo (v.23).

11."Os chamados" são os que ouviram e obedeceram (creram), seja judeu ou grego. Estes entendem que a mensagem do Evangelho (a Cruz) é o poder e sabedoria de Deus (v.24).

12.A "loucura-sábia" é a sabedoria de Deus e a "sabedoria-louca" é a tolice dos homens. Os homens julgam a mensagem de Deus loucura, mas é esta "fraqueza de Deus" que é o Seu poder (v.25).

13.Deus não escolheu os grandes. Deus não precisa de sabedoria humana. Este é o sentido de "vocação": não as pessoas indo até Deus, mas Deus buscando as pessoas e, evidentemente, estas aceitando ou rejeitando (v.26).

14.Os "sábios" rejeitam e os "loucos" aceitam. O fato de Paulo dizer que Deus não chamou muitos nobres, sugere que alguns nobres aceitaram o chamado e tornaram-se "loucos". "Segundo a carne", isto é, segundo os padrões humanos (v.26).

15.Se Deus pode exaltar coisas fracas, isso prova Sua onipotência ("de ossos secos dá vida"). Deus confunde ("kataischune", envergonhar) os sábios. Muitos dos chamados (crentes) em Corinto eram lavradores e escravos. Isso foi alvo de zombaria, mas para Deus serve para envergonhar os nobres (v.27).

16.O sentido de humilde aqui é de "baixo nascimento", ou seja, sem ancestrais importantes ou nobres (v.28).

17.A Bíblia sempre fala que a altivez é abatida por Deus (Pv 16.18, Is 2.11, 25.11, 2 Co 10.5, Sl 18.27, 101.5, Is 5.15, 10.33). Todos os que lutaram contra Deus perderam (1 Sm 2.10). Na verdade Deus sabe que somos fracos, o que falta é reconhecermos isto (v.29).

18."Em Cristo" todos os benefícios da salvação são nossos. Nossa união com Cristo nos une aos irmãos (esta era a necessidade dos coríntios). Em Cristo temos: Sabedoria (compreensão, entendimento),   Justiça (retidão), Santificação (dedicação, consagração, separação) e  Redenção (resgate do mercado de escravos) (v.30).

19.Com tudo isto podemos nos gloriar "em Cristo" (Jr 9.24), pois o mérito é Dele e por estarmos Nele, participamos de Sua glória (v.31).

Nenhum comentário:

Postar um comentário