1 Coríntios 14


Capítulo 14: A supremacia do dom da profecia em relação ao dom de língua
1.Paulo retoma o assunto principal, que são os dons. O dom da profecia é o preferido de Paulo. O dom de línguas só serve quando há interpretação e quando isso acontece passa a ser a mensagem inteligível de Deus, o que é isto senão a profecia aplicada?! A palavra "procurar" é a tradução de "diokete" que significa "perseguir, seguir, lutar para conseguir", portanto está claro que os dons, embora eram dados por Deus, eram "conquistados" pelo crente zeloso e desejoso pelo dom (v.1).

2.A expressão "lallon glossa" significa "falar línguas ou idioma". A inclusão da palavra "outra" ou "estranha" foi por conta do tradutor, pois não existe no original. Paulo diz que quando se fala em língua "ninguém entende", evidentemente se não houver intérprete. Portanto, tal pessoa falará "em mistério", isto é, "sem significado, encoberto". Não podemos afirmar com certeza se as línguas faladas entre os coríntios eram idiomas como em Atos 2 ou línguas extáticas, ou seja, línguas faladas em estado de êxtase (v.2).


3.A profecia traz ensino, consolo, advertência e informações sobre como viver a vida cristã e o que acontecerá aos crentes e ao mundo (escatologia). Imagine se não houvesse a palavra de Paulo como profeta para os Tessalonicenses num tempo de incerteza (1 Ts 4.18) (v.3).

4.Esta é a diferença básica entre falar em línguas e profetizar. Falar em línguas edifica a si próprio e profetizar edifica a igreja, que é o "fim proveitoso" dos dons (1 Co 12.7) (v.4).

5.Paulo preferia a profecia, isto porque o objetivo primário dos dons é a edificação da igreja. A profecia atinge de modo eficaz e rápido este alvo (v.5).

6.Paulo descreve sua próxima visita a Corinto com o objetivo de edificar e não falar outro idioma (v.6).

7.Um instrumento de sopro ("aulos"), só tem sentido se houver uma variação lógica dos sons produzidos, uma melodia bem tocada faz sentido musical, mas sons discordantes nada significam (v.7).

8.No militarismo a música tem seu valor; o toque avisa sobre a retirada, o ataque, o levantar e o luto (v.8).

9.A glossolalia sem entendimento é inútil. O dom de línguas requer clareza e só existe clareza com interpretação (v.9).

10.No versículo 10, Paulo faz um jogo com as palavras: "Há muitas phonon no mundo, mas nenhuma são aphonon". Ou seja, "Há muitos sons (phonon) no mundo, mas nenhum destes sons é sem sons (aphonon). Se todo o som significa alguma coisa, o ato de falar em línguas deve existir uma razão também (v.10).

11.Quem não dá importância ao significado das palavras de um idioma é como um estrangeiro (literalmente "bárbaro"). Bárbaro era todo aquele que não falava grego e posteriormente tornou-se um termo pejorativo para todos os selvagens (v.11).

12.A conclusão de Paulo está no v.12: a prioridade dos dons é a edificação, os dons que não estão diretamente ligados a isto são secundários (v.12).

13.Quem tem o dom de línguas não deve ficar satisfeito, mas orar a Deus pedindo a capacidade de interpretação. Isto mostra que o próprio falante podia interpretar o que falou. Neste caso, só gastou mais tempo do culto! Com o decorrer do tempo, como a pureza vai-se extinguindo, alguém poderia duvidar se a interpretação de outro estaria correta, muito mais quando o próprio falante é o intérprete!! (v.13).

14.A razão (intelecto) no culto é de extrema importância para não se tornar infrutífero (Rm 12.1). O culto a Deus deve ser inteligente. Note no v.14 que mesmo a pessoa que falava em línguas não entendia, exceto se ela mesma era intérprete (v.14-15).

15.No v.16  "indouto" ("idiota" é a palavra grega; em português que é a transliteração desta palavra, é totalmente pejorativa, mas o sentido grego é alguém "não treinado, sem o aprendizado, não especialista"). Este indouto refere-se a um crente, porém, sem o dom da interpretação, enquanto no v.23 refere-se a um incrédulo que além de não ter o dom da interpretação não tem entendimento espiritual sobre aquela reunião (v.16-17).

16.Paulo falava vários idiomas que aprendeu com as capacidades intelectuais, tais como grego, latim, siríaco, hebraico e outros. É possível que ele também falasse línguas extáticas, mas não promovia esta prática. Paulo preferia ser entendido diretamente sem interpretação (v.18).

17.Dez mil palavras corresponde a uma hora de discurso ininterrupto. A palavra usada no v.19 é conhecida por nós, que é "katekeso" (catequese) que significa "ensinar oralmente" (v.19).

18.Os coríntios eram infantis, exibindo seus dons de maneira ininteligível. Paulo diz para serem como criança na malícia, ou seja, na criança a malícia ainda não está tão desenvolvida. Deviam ser mais ajuizados e perceber que a igreja não é lugar para "brincar de dons", mas deviam edificar-se mutuamente (v.20).

19.O propósito das línguas (v.21-22)

                SEIS CONSIDERAÇÕES:
1)O CONTEXTO EM ISAÍAS 28.11-12: Israel não ouviu os profetas.

2)O JULGAMENTO: O povo de Israel foi entregue aos assírios de linguajar (idioma) estranho.

3)SIGNIFICADO EM ATOS 2: Forma de julgamento para que os judeus incrédulos não entendessem o louvor dos recém-convertidos a Cristo.

- Obs: O mesmo princípio se deu com as parábolas em Mc 4.34 e Mt 13.14-15.

4)SIGNIFICADO EM ATOS 10.44-48: Sinal para que os crentes judeus-incrédulos aceitassem o batismo dos gentios no corpo de Cristo.

 - Obs: Crentes judeus-incrédulos eram os judeus salvos, porém, incrédulos no sentido de aceitarem os gentios no corpo de Cristo, sem precisarem tornar-se prosélitos do judaísmo.

5)SIGNIFICADO GERAL DAS LÍNGUAS:
   1º) Sinal para os judeus incrédulos de que foram rejeitados por Deus.

   2º) Sinal para os judeus salvos de que os gentios foram aceitos no corpo de Cristo.

6)SIGNIFICADO EM CORINTO: Certamente não era o mesmo que em Atos, pois a Igreja Universal já estava estruturada. Línguas em Corinto era para exaltação a Deus, mas sem o propósito de confundir judeus.   
 - Possivelmente era uma prática ainda "tolerada" e abençoada por Deus, mas em vias de extinção. Isto é perfeitamente compreensivo pensando no momento de transição.

20.Embora não era convidado, o incrédulo podia entrar na igreja. As línguas só confundem num caso assim. A profecia, por outro lado, era de extrema importância, pois o visitante podia entender e até mesmo se converter. (v.23).

21.O visitante podia ficar convencido do pecado e da culpa por meio da profecia. O sentido da expressão "por todos" subentende-se "por todos" os que profetizaram. O visitante que guarda no seu coração pecados ("segredos do coração") pode ser convencido e reprovado em Cristo por meio da profecia. Portanto, Paulo exalta a profecia em detrimento ao falar em línguas, isto por causa da eficácia e sublimidade de propósito e não por causa da origem que é a mesma, o Espírito Santo (v.24-25).

22.Aqui é ensinado o "culto aberto", onde a participação era livre, mas que por isto mesmo poderia levar à desordem (v.26).

23.Paulo proibiu falar em línguas em massa. Isto prova algo importante: falar em línguas era uma ação inteligente e controlada. Se não houvesse intérprete o falante devia ficar calado. Isto também mostra que as línguas não são importantes para o culto, e que se pode perfeitamente, prosseguir sem a glossolalia. Portanto, Paulo já estava antecipando a extinção desse dom, pois para o propósito primário já teria se tornado inútil (1 Co 12.7) (v.27-28).

24.Podia haver tanta quantidade de profecia a ponto da mente não mais poder captar. Isto era comum, visto que o NT não havia nem começado a ser escrito, praticamente. Só podia haver a participação de três profetas por reunião. Caso viesse uma revelação urgente durante a palestra de alguém, o que estava falando devia ser interrompido e ceder o lugar para aquele que tivesse recebido a revelação urgente (v.29-30).

25.No v.31 "todos" evidentemente restringe-se aos que têm o dom da profecia e três por reunião, no máximo (v.31).
26.No v.32 não está ensinando que um profeta está sujeito ao outro, mas que um profeta está sujeito a si mesmo, isto é, tem domínio sobre si próprio e pode parar de falar quando quiser e ceder seu lugar ao outro. "Espíritos” aqui se refere ao espírito humano, o qual todos temos. O problema específico dos coríntios nos cultos era a confusão. (v.32-33).

27.Embora, atualmente seja muito difícil encontrar uma igreja assim, no primeiro século, pelo menos, a mulher não ensinava e nem ao menos participava de nenhuma discussão nas reuniões da igreja. A mulher com dúvidas perguntava ao marido. Paulo nada fala sobre as dúvidas da mulher solteira, viúva ou aquela que tinha marido incrédulo, pois neste caso não podiam perguntar a ele, visto ser incrédulo (v.34-35).

28.A Palavra de Deus não iniciou com os coríntios, antes foram apenas receptores, por isso, não têm o direito de argumentar as decisões de Deus e da autoridade apostólica (v.36).

29.Paulo estava convicto de que Deus o dirigiu para ensinar isto. Se alguém não quer reconhecer este assunto, ou seja, ordem no culto: línguas, profecia e lugar da mulher na igreja, então, Paulo dá por encerrada a conversa. Ele simplesmente deixa aquele que ignora em seu estado, ou seja, na ignorância, sem forçar sua convicção. Porém, devido à autoridade apostólica, pode resistir às opiniões contrárias com muita veemência e até expulsar os que causam dano na igreja (v.37-38).

30.Devem procurar profecia e não línguas, embora estas não sejam proibidas. No culto público deve haver (v.39-40):

DECÊNCIA: boa conduta conduzir-se com dignidade ("euchemonos").
ORDEM: Termo militar que significa "disciplina rígida" ("taxis").

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