Gálatas 3

Capítulo 3: Abraão e a promessa, a lei e o aio
1.Segundo o comentarista Barnes, o capítulo 3 de Gálatas trata dos seguintes assuntos: “Uma severa reprovação aos gálatas por terem sido facilmente seduzidos... Ele [Paulo] apela a eles para mostrar-lhes que os grandes benefícios que receberam não foram em conseqüência à observação dos ritos mosaicos... Ilustração à doutrina da justificação pela fé... referindo-se a Abraão... A Lei pronunciou uma maldição a todos que estão debaixo dela...”

2.O desafio da vida cristã é começar bem, prosseguir bem e concluir bem a carreira neste mundo. Os gálatas começaram bem, não estavam prosseguindo bem e para voltar ao caminho correto, Deus mandou Paulo para corrigi-los. É fácil deixar a graça de Deus e viver pelos próprios esforços, ou seja, pela Lei. As pessoas mostram os sintomas do desvio da graça para a lei, que é a tentativa de exercer a justiça própria para agradar a Deus, logo no início da vida cristã e por toda a vida. Os expositores da Bíblia precisam corrigir esta falha através do ensino. O crente que fica fascinado por outros temas deixar de pregar Cristo crucificado. Não há salvação fora dessa mensagem. Não há como vencer o pecado dia-a-dia se não nos considerarmos mortos com Cristo na cruz. O crente que fica fascinado pelo mundo foge da pregação da fé. Quem deseja novos rumos pode estar caindo num caminho muito perigoso, pois a vida do crente é baseada na fé (v.1-2).

3.O crente que fica fascinado por outras filosofias de vida rejeita a luta do Espírito contra a carne. A carne é cheia de enganos. É um modo de agir que não combina com o poder do Espírito Santo. O crente que fica fascinado pelas facilidades dos outros evangelhos não aceita o fato do sofrimento cristão. Para chegar à maturidade cristã sofremos muito. Não é em vão. Vale a pena, pois ganharemos a graça para cada dia (v.3-4).

4.O crente que fica fascinado com este mundo não consegue enxergar as maravilhas de Deus. Ninguém a ser o nosso Deus pode operar maravilhas. Tudo o que fazemos com o esforço próprio é apenas uma imitação muito fraca. É falso (v.5).

5.Portanto, desprezar a cruz, a fé, o Espírito, o sofrimento cristão e as maravilhas de Deus é fugir da simplicidade do Evangelho. É um sintoma do desvio da graça para a lei para viver a justiça própria. Não precisa ser judeu para ser um filho de Abraão, mas sim andar por fé, assim como ele andou. Deus disse para Abrão: “Sai da tua terra e da tua parentela para uma terra que eu te mostrarei.” Isto exigiu fé, pois Abrão não sabia que terra era esta e o que o aguardava. Todos os que levam a vida de fé a sério são filhos de Abraão. Todos os que crêem em Cristo como Salvador são filhos de Abraão (v.6-9).

6.Um sintoma do desvio da graça é não viver como Abraão. Ele saiu por fé, esperou o nascimento de Isaque por fé, pois Sara era estéril. Ele subiu a montanha para sacrificar o seu único filho por fé, esperando que se o matasse Deus ressuscitaria o seu filho. Qualquer que seja a ordem de Deus para a nossa vida, devemos obedecer por fé, pois Ele providenciará para que tudo tenha bom resultado. Parece estranho dizer isto, pois “maldição” é uma palavra indesejada para todos os crentes. Mas quando não vivemos dependendo da graça (do favor) de Jesus, estamos debaixo de uma maldição, que é a maldição da lei (v.10-12).

7.Todo o crente que deseja agradar a Deus com a sua própria justiça está errando o alvo da vida cristã. Cristo sofreu a maldição da cruz para que não soframos a maldição da lei. Não temos nada para oferecer a Deus que O agrade. Somente quando o Espírito Santo nos capacita para fazer a obra de Deus é que somos aceitos. Abraão exerceu fé e isto nos serviu de exemplo. Cristo morreu por nós e isto nos serve para nos capacitar para fazermos a Sua vontade. Pensamos que o crente desviado é aquele que não vem mais para a Igreja. Isto é verdade, mas não é toda a verdade. Podemos frequentar a Igreja e ainda assim nos desviarmos da graça de Jesus. Toda vez que fujo da simplicidade do Evangelho, não vivo como um filho de Abraão e vivo dependendo dos próprios esforços, da minha capacidade, estou me desviando da graça de Cristo e dependendo da lei e o resultado de viver debaixo da lei é maldição, sem poder agradar a Deus. Provérbios 15.10 pode ser visto como o castigo para o que se desvia da graça para a lei. (v.13-14).

8.Os que desejam criar regras próprias para serem aceitos por Deus estão correndo o grande perigo de infração da lei de Cristo. Ou seguimos as próprias leis que criamos ou aceitamos a lei de Deus em Cristo Jesus. Paulo passa a mostrar aos crentes e aos judaizantes a superioridade da graça em relação à lei. É claro que a lei teve o seu valor, pois ela vem do próprio Deus e, portanto, é santa. Porém, a lei já cumpriu o propósito que era conduzir pecadores desesperados até Àquele que podia salvá-los. Assim como nas leis humanas ninguém vai anulando aquilo que já foi ratificado, ou seja, confirmado, da mesma maneira não temos autoridade de substituir a graça dada por Deus por obras praticadas por nós mesmos (v.15).

9.A graça de Deus ou o favor imerecido não surgiu como plano de última hora para salvar os pecadores, mas foi concedida a todos os pecadores desde o início. É evidente que nem todos aceitam a graça de Deus, mas os que recebem o presente de Deus sem obras próprias são salvos e se tornam filhos de Deus. Paulo nos esclarece que a promessa de Deus para Abraão não era simplesmente uma multidão de pessoas, mas Uma Pessoa que é Cristo Jesus. Quando muitos pensavam que o descendente de Abraão fosse Isaque ou Jacó, Paulo revela que é Cristo. Nele, todas as famílias da terra são abençoadas com a salvação (v.16).

10.A promessa de Deus feita a Abraão nada tem a ver com o regime da Lei de Moisés, pois foi feita 430 anos antes da instituição da Lei. A graça é superior à lei, pois veio antes da lei. É impossível ab-rogar, ou seja, anular a graça. O que Cristo fez na cruz nada tem a ver com as obras do homem. Ninguém é salvo porque fez alguma coisa, mas porque Cristo fez. O fato do pecador aceitar a salvação não significa que ele possa se orgulhar como se tivesse algum mérito. Ninguém tem mérito por estar morrendo de sede, caído no deserto, e alguém colocar uma jarra de água fresca na frente dele e ele tomar a água em grandes goles. É o que qualquer desesperado faria. O pecador não tem mérito por aceitar a salvação disponível em Cristo. Ele fez o que todo pecador desesperado deveria fazer (v.17-18).

11.A lei de modo algum pode anular a graça de Cristo.  Não há nada que o pecador possa fazer para ser salvo e não há nada que um crente possa fazer para se considerar mais salvo do que o seu irmão em Cristo. Além da lei não ter poder anular a graça, a lei não é temporária, mas a graça é eterna. Paulo usa a expressão “até”, indicando que a lei foi temporária. A razão disso foi para mostrar ao pecador que ele não pode chegar até Deus tentando cumprir normas, ainda que divinas, pois ele se mostra falho em cumpri-las. Afinal de contas, não é uma blasfêmia falar que a lei é inferior à graça, sendo que ambas são dadas por Deus? A lei foi promulgada, ou seja, instituída por Deus. Ela foi entregue a anjos e estes entregaram para Moisés. Como pode não ser eterna? Paulo responde que a lei foi adicionada depois da graça concedida a Abraão por causa dos pecados. O quanto o homem tiver seus pecados em relevo mais poderá ver a graça de Deus. O objetivo é empurrá-lo para a graça totalmente sem esperança em si mesmo (v.19).

12.Há dois mediadores, mas apenas um Deus. Moisés é o mediador entre Deus e os israelitas e Jesus Cristo é o mediador entre Deus e todos os pecadores. Também não há dois métodos de salvação, a lei e a graça. A salvação sempre foi pela graça. O pecador recebe o favor de Deus, crê Nele e aceita fazer o que Ele manda como única maneira de ser salvo. Antes de Cristo, o pecador aceitava o modo de salvação instituído por Deus que era sacrificar um animal, crendo no Libertador que viria. Com a vinda de Cristo, o pecador aceita o modo de salvação instituído por Deus que é crer no sacrifício perfeito de Seu Filho, Jesus Cristo (v.20).

13.A lei e a graça não estão lutando entre si. Simplesmente a graça é superior à lei, pois a finalidade da lei era mostrar que o pecador precisava da graça de Deus para ser salvo e a lei cumpriu muito bem o seu papel. Se a lei pudesse salvar alguém, então a salvação não seria pela graça, mas pelos nossos méritos. Acontece que se dependêssemos de nossos méritos jamais seríamos salvos da ira de Deus (v.21).

14.A Palavra de Deus simplifica a situação dos pecadores. Não se faz a pergunta: “Quem precisa mais de salvação” ou “Quem é mais pecador?”, mas em vez de uma pergunta é feito um convite: “Venham todos vós que tendes sede e bebei da água viva”. Todos os pecadores foram colocados debaixo do pecado para que a graça fosse manifestada a todos (v.22).

15.Antes que crêssemos éramos tutelados pela lei, ou seja, tentávamos nos salvar através de nossos próprios esforços, mas só nos cansamos. Esta pode ser uma maneira de entender este versículo, porém, o mais provável é que Paulo se refira aos judeus antes de Cristo. A lei era a tutela, ou seja, a lei guardava a todos até que viesse Cristo. Os que praticavam os sacrifícios que a lei exigia estavam guardados, mas só até Cristo vir. Com a vinda de Cristo, o pecador deve decidir se O aceita ou não, pois a lei não pode ir além de Cristo (v.23).

16.A lei serviu de aio para o pecador. Aio é a tradução da palavra “pedagogos” que era um escravo ou pessoa de confiança que cuidava de um menino grego ou romano, educando-o ou disciplinando-o até que ele fosse maior de idade. O trabalho do aio incluía cuidar da moralidade do menino, levá-lo para a escola e ajudá-lo nos estudos. O aio era limitado no sentido de fazer o menino se tornar um bom caráter e estudioso, mas pelo menos o levava até a fonte. A lei de Moisés conduziu o povo de Israel e todos os demais que aceitassem a fé judaica até Cristo. A lei não tem como objetivo mudar o coração de ninguém, mas conduzir o pecador, apontando-lhe os pecados, até que não veja nenhum outro caminho, senão Cristo (v.24).

17.Com a fé depositada em Cristo, o crente não precisa mais da lei. Ele não despreza a lei como se ela fosse má, mas agradece a Deus por ter revelado o seu pecado por meio da lei. O menino, agora transformado em adulto, não fica com raiva do aio que o conduziu, pelo contrário, fica agradecido porque cumpriu a sua função. Porém, o aio não é mais necessário. Em Cristo, não precisamos mais da lei para nos revelar pecados, pois deles já fomos salvos (v.25).

18.Somente os crentes são filhos de Deus. Os que ainda confiam em seus próprios méritos para serem salvos não são filhos de Deus, pois a lei não gera filhos para Deus, mas apenas conduz pecadores desesperados até Cristo (v.26).

19.O crente é batizado em Cristo, ou seja, foi colocado dentro do Corpo de Cristo chamado Igreja. O presente que recebemos por essa nova posição foi a própria Pessoa de Cristo em nós. O crente está de roupa nova, ou seja, revestido de Cristo. A lei jamais podia fazer isto, somente a graça de Deus. A lei só mostra o pecado, mas a graça nos limpa dos pecados (v.27).

20.Assim Paulo conclui as suas comparações entre a lei e a graça. Não há diferença no Corpo de Cristo, pois todos somos pecadores redimidos pela graça, somos herdeiros da promessa feita a Abraão. Fomos abençoados no descendente de Abraão que é Cristo Jesus. A graça é superior à lei porque a lei não consegue anular a graça e a lei não é eterna como a graça. Mas isto não quer dizer que Deus tem uma corda com a lei e a graça nas pontas, lutando uma contra a outra. A lei teve a sua função e cumpriu muito bem. A graça sempre esteve presente salvando pecadores que deixaram de confiar em sua capacidade de cumprir a lei ou viver pelos próprios méritos (v.28-29).


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